Crítica | Segredos de um Escândalo (May December) [2023]

Nota do Filme:

“Isso é o que os adultos fazem.”

Elizabeth

Segredos de um Escândalo acompanha o trabalho de pesquisa de uma atriz para o seu próximo papel, uma recontagem de um midiático caso da década de 90. Elizabeth (Natalie Portman) busca se imergir em Gracie (Julianne Moore), à época com 36 anos, que se envolveu “romanticamente” com Joe (Charles Melton), à época com apenas 13 anos. Tal interferência, contudo, acaba por afetar a aparentemente vida feliz do hoje casal.

Mais conhecido pelo seu (excelente) trabalho em Carol, Todd Haynes nos traz mais uma abordagem intimista, desta vez de uma tensa história vagamente baseada em fatos reais. Um roteiro de difícil abordagem que, felizmente, foi parar na mão de pessoas extremamente aptas a reproduzi-lo.

Segredos de um Escândalo tem a complicada tarefa de retratar o tópico de abuso sexual de crianças do sexo masculino, algo pouco representado em tela. Outrossim, o longa traz outras nuances à questão. Gracie era chefe de Joe no pet shop no qual trabalhavam – ela foi a responsável por contratá-lo. Ademais, é uma mulher adulta branca que se envolveu com uma criança de ascendência asiática[1] em uma época consideravelmente mais preconceituosa que a atual. O desequilíbrio de poder na “relação”, portanto, é palpável a qualquer pessoa que a observe.

“Relação” entre aspas, pois, o relacionamento nasceu de escancarado abuso sexual, o qual não pode ser justificado. As feridas, nascidas por conta desse início maculado, reverberam no decorrer da história, inclusive no seu começo, quando os encontramos casados e vivendo em perfeita harmonia.

A bem da verdade, à primeira vista, parece que os mais afetados pelo evento foram terceiros que, de maneira colateral, foram negativamente impactados. Cita-se, como exemplos, o ex-marido de Gracie e seu filho primogênito, Georgie (Cory Michael Smith), à época colega de classe de Joe.

Todavia, essa pressão se acumula sob a superfície das relações dos personagens. Haynes nos transmite essa inquietude ao retratar cenários mundanos com um quê de estranheza. A chegada de Elizabeth, então, funciona como um catalisador para questões pré-existentes, uma vez que reabre feridas que nunca foram totalmente cicatrizadas.

Naturalmente, o foco inicial recai quase integralmente sobre Gracie, uma vez que é quem a atriz busca retratar no cinema, sendo Joe relegado ao fundo da história. Trata-se, porém, de uma ardilosa opção, que acaba por retratar, justamente, a injustiça que o escândalo em si causou a ele.

Afinal, ninguém parece interessado em como Joe se sente, ao menos não para além de respostas automáticas. Tal qual a mídia sensacionalista desconsidera as vítimas em casos do gênero, o mesmo ocorre aqui. O cerne da representação, inicialmente, recaia na abusadora, e não no abusado.

Pode-se entender, então, que Segredos de um Escândalo traz um meta-comentário sobre o gênero true crime. Isto porque a sua ascensão, tanto na TV quanto no cinema, levanta questões éticas à sua audiência. Até que ponto os espectadores acabam por reforçar essa estética? Até que ponto é válido simpatizar com a desumanidade? Aqui temos quase uma sátira, ao mesmo tempo em que se convida a audiência a questionar os seus próprios hábitos.

No decorrer da narrativa, Elizabeth parece perceber a carência de atenção a Joe e se aproxima dele, momento no qual conseguimos mais informações sobre como funciona a sua vida. Retraído e de poucas palavras, não parece ter qualquer interesse próprio, ao contrário de sua esposa que parece sempre querer se manter ocupada.

Além de acompanhar programas de TV antigos, o único hobby que o personagem parece ter é a sua coleção de borboletas-monarca, à época em grande declínio migratório. Ao explicar o seu hábito, suas falas não poderiam ser mais claras: “proteja-os (os ovos) para que tenham a oportunidade de crescer”. O simbolismo com a metamorfose, então, fica evidente, afinal, ele não pode transitar, efetivamente, para a fase adulta.

São nesses momentos que o roteiro aproveita a oportunidade para reforçar a imensa diferença de idade do casal no momento do abuso inicial, mais exemplificado por meio das cartas que eles trocaram após o evento. Enquanto a de Joe era, literalmente, um dever de casa da escola e extremamente simplista, a de Gracie é eloquente, com foco no prazer. É impossível não se sentir enojado ao contrastar as duas.

Dessa forma, a direção de Haynes consegue mesclar o drama e a comédia de maneira excepcional. Porque, não se engane, há humor em Segredos de um Escândalo. A audiência é quase que convidada a rir de situações exageradas, o riso a funcionar como válvula de escape. Contudo, após, é impossível não se questionar acerca do conteúdo retratado. Esse mix de graça/seriedade acaba por desorientar os espectadores, da melhor maneira possível.

Não à toa, durante toda a obra, é possível sentir que há algo estranho na forma como tudo é retratado. Os enquadramentos escolhidos, a iluminação, tudo é feito para reforçar esse desconforto. Os outros elementos técnicos auxiliam essa empreitada, seja pelo inteligente roteiro e diálogos de Samy Burch, seja pela bombástica e intensa trilha sonora de Marcelo Zarvos, que tanto acrescenta a todas as cenas.

Seria relapso não abordar as intensas performances dos três atores principais. Julianne Moore nos traz uma interpretação um tanto quanto bizarra, no bom sentido. É difícil identificar o que de fato ocorreu e o que ela se convenceu que ocorreu. Já Natalie Portman nos traz uma cínica artista que pouco parece se importar com a vida daqueles que serão retratados, vendo os envolvidos apenas como material de análise para o seu próximo projeto. Novamente, é difícil identificar se há qualquer traço de empatia em todas as suas interações.

O destaque, contudo, fica para Charles Melton, em uma performance tão intensa que deixará o espectador desconfortável. Seus maneirismos e a forma como se transforma, a depender de quem o acompanha, transmite à audiência a extensão de seu trauma, sempre de maneira sutil.

Joe tem as características que se espera de um homem da sua idade: ele dirige, tem um emprego e filhos. A impressão que temos, porém, é que a sua mentalidade jamais se desenvolveu para além daquela criança da década de 90, quase como se ele estivesse meramente fingindo ser um adulto. O mérito dessa nuance que ele passa a nós é todo de Charles Melton que, por meio da sua presença, tonalidade de voz e fisicalidade, irradia diferentes emoções daquilo que se vê em tela.

Segredos de um Escândalo, então, é um dos ótimos concorrentes ao Oscar de 2023. A direção primorosa de Todd Haynes é complementada pelas performances evocativas, o roteiro inteligente e a trilha sonora provocativa. Em um ano com tantos filmes excepcionais, em especial na categoria de atuação, é excelente vermos mais um para embolar a disputa. Ganha o Cinema.


[1] Por mais que Joe seja, efetivamente, americano, pois nasceu nos Estados Unidos, sua família é lembrada pela esposa como “a única coreana na vizinhança”, o que reforça a visão que quanto à ascendência do marido.