Crítica | Coyote vs. Acme (2026)

Nota do Filme:

“Você foi gravemente ferido por um produto da corporação ACME? A culpa não é sua!”

Kevin Avery

Coyote vs. Acme acompanha Wile E. Coyote, exausto dos constantes desastres provocados pelos produtos da ACME Corporation em sua eterna caçada ao Papa-Léguas. Decidido a dar um basta, ele move uma ação judicial contra a gigante corporativa com a ajuda do advogado Kevin Avery (Will Forte). O que começa como um processo tribunal ganha contornos pessoais, transformando a disputa em uma aliança improvável no combate a um inimigo comum.

É impossível analisar o longa sem mencionar o esforço hercúleo exigido para que ele sequer chegasse às telas. A mobilização e a pressão dos fãs fizeram com que a Warner Bros. – que havia engavetado a obra para fins de dedução fiscal – voltasse atrás e a vendesse para um estúdio interessado em sua distribuição. Nessa reviravolta, a liberdade artística triunfou, o público venceu a disputa e o conglomerado de mídia teve sua imagem arranhada.

Surge, assim, um meta-comentário que se entrelaça com a própria narrativa. O filme apresenta uma autêntica dinâmica de “Davi contra Golias”: de um lado, o pequeno consumidor munido apenas pelo desejo de justiça; do outro, uma corporação colossal que detém todos os recursos para esmagar o oponente.

Toda essa saga de bastidores, porém, valeria de pouco se o resultado final não justificasse o investimento de tempo e expectativa. Felizmente, não é o caso. Coyote vs. Acme se consolida como uma das grandes surpresas do ano pela sua ótima execução e, sobretudo, por um feito técnico e narrativo marcante: poucas produções conseguiram mesclar animação e live-action de forma tão orgânica. O humor surge naturalmente do contraste entre o espírito anárquico das animações clássicas dos Looney Tunes e a sobriedade realista do mundo ordinário.

Essa simbiose bem-sucedida depende, em grande parte, do elenco, que abraça o tom da proposta sem hesitar. Will Forte, Lana Condor e John Cena vendem com credibilidade a existência desse universo híbrido, equilibrando a loucura dos desenhos com atuações suficientemente sóbrias para dar peso emocional à história.

Contudo, o verdadeiro coração do filme reside na complexa relação entre o Wile E. Coyote e sua eterna obsessão: o Papa-Léguas. É inevitável simpatizar com uma figura que, a despeito das sucessivas tragédias, jamais abandona seus objetivos – uma alegoria sisífica que o roteiro explora com perspicácia, ao mesmo tempo em que aprofunda o olhar do próprio Papa-Léguas sobre essa “rivalidade histórica”.

Ainda que enfrente ligeiros deslizes de ritmo em determinados momentos, Coyote vs. Acme vai muito além de uma simples celebração da nostalgia ou da comédia pastelão. Ao espelhar nas telas a sua própria batalha de bastidores, o longa consolida-se como um triunfo da persistência e uma prova de que até as causas mais improváveis merecem ser defendidas.