Poucos diretores possuem uma assinatura artística tão imediatamente reconhecível quanto Wong Kar-wai. Enquanto alguns cineastas precisam de alguns, ou muitos, minutos para revelar sua personalidade, para Kar-wai basta um único take.
A câmera próxima demais dos corpos e rostos, as cores saturadas, os reflexos e desfoques e uma trilha sonora que serve, ao mesmo tempo, ao personagem e ao espectador compõem uma linguagem tão particular que seus filmes são frequentemente reconhecidos antes mesmo de sabermos que estamos diante de uma obra sua.
Engana-se, porém, quem restringe o cinema de Kar-wai à mera técnica ou ao estilo, embora, sendo justo, muito dessa estética seja fruto de sua longeva parceria com o diretor de fotografia australiano Christopher Doyle. Há, para além da forma, a montagem fragmentada de uma Hong Kong simultaneamente caótica e melancólica, palco, em grande parte, de personagens solitários, encontros fortuitos e amores que não se concretizam.
Uma cidade que parece nunca dormir e que, nas mãos do diretor, deixa de ser mero cenário para se tornar parte fundamental da narrativa, espaço em que Chungking Express (1994) se afirma como um dos retratos mais fiéis da linguagem cinematográfica própria de Wong Kar-wai.

Lançado no meio do caminho entre Dias Selvagens (1990) e 2046 – Os Segredos do Amor (2004), e seis anos antes do aclamado Amor à Flor da Pele (2000), Chungking Express, o filme que encantou Quentin Tarantino, ocupa uma posição particularmente interessante na filmografia de Wong Kar-wai.
Concebido inicialmente como parte de um projeto maior que desembocaria em Fallen Angels (1995), os dois filmes estabelecem uma espécie de contraponto entre dia e noite, duas faces distintas, mas indissociáveis, da mesma solitária e frenética Hong Kong. A Tarantino, dado o devido crédito, coube, no Ocidente, um papel importante em sua distribuição nos Estados Unidos, por meio de sua então recém-criada Rolling Thunder Pictures.
A partir dali, Chungking Express ampliaria seu alcance para o público americano e, consequentemente, para os vizinhos latinos, chegando, inclusive, até nós, brasileiros. O fascínio não era difícil de entender: havia diante deles algo pouco usual para aquele público, um diretor com uma linguagem visual radicalmente própria e duas personagens femininas inesquecíveis, vividas por Brigitte Lin e Faye Wong.
Chungking Express, título que faz referência ao complexo comercial urbano Chungking Mansions e à lanchonete Midnight Express, conta duas histórias independentes, mas nem tanto, protagonizadas por homens — por alguma razão, policiais — emocionalmente despedaçados e desiludidos com seus relacionamentos.
Na primeira, o policial 223 (Takeshi Kaneshiro), abandonado pela namorada, define uma data de validade para o próprio sofrimento. Compra latas de abacaxi que vencem sempre em 1º de maio, porque May — a ex — gostava da fruta. May, a quem não somos apresentados, aliás, sequer sabemos se existe, exerce sobre ele um controle que, na verdade, é inteiramente autoimposto, já que em nenhum momento parte dela qualquer ordem, seja de afeto ou de desprezo.
São 30 latas, uma para cada dia entre 1º de abril, data em que foi dispensado — e, olha só, o Dia da Mentira também no Oriente —, e 1º de maio, seu aniversário, quando estabelece para si próprio o prazo definitivo para que aquele amor deixe de existir. As latas de abacaxi funcionam, aqui, como marcadores da passagem do tempo e da perecibilidade das coisas, inclusive do amor. A lata, criada para conservar, já nasce com uma data para deixar de conservar. E May, na imaginação de 223, nas comidas e nos homens, queria experimentar pratos novos.
“Se as memórias pudessem ser enlatadas, será que elas também teriam data de validade?”

Na segunda história, o policial 663 (Tony Leung) também lida com o abandono, ao tentar seguir a vida após ser dispensado por sua namorada, uma comissária de bordo que passou como um voo por sua vida e que, por meio de uma carta não aberta e de uma chave não entregue, pôs fim àquilo que, por um instante, ensaiara ser eterno.
Enquanto tenta prosseguir, com doses nada modestas de chef’s salad com batata frita e café preto, lida com a melancolia e a depressão de sua própria casa, na qual os objetos, especialmente aqueles que pertenciam à antiga paixão, precisam ser consolados a todo momento. Até mesmo o apartamento parece compartilhar de sua tristeza, ora inundado por uma suposta infiltração, ora “choroso” demais para ser apenas uma casa.
De sua filmografia, percebe-se que Wong Kar-wai não está particularmente interessado em contar histórias de amor convencionais. Seus personagens quase nunca conseguem simplesmente estar juntos, eles chegam tarde, partem cedo, olham para a pessoa errada, encontram alguém por acaso ou percebem que, quando finalmente estão prontos, o outro já não está.
É a ideia da impossibilidade de definir com precisão se 0,01 cm é perto ou longe. Se, por um lado, a distância física pode ser microscópica, por outro, a distância emocional pode ser infinita; separados pela mesma metragem, posso sequer saber da sua existência ou, quem sabe, tornarmo-nos grandes amigos. Em Chungking Express, o amor depende muito menos da vontade dos indivíduos do que de uma combinação arbitrária de tempo, espaço e acaso.
0,01 cm é, inclusive, a distância mais próxima e mais distante que 223, o primeiro policial, esteve de duas mulheres, possíveis amores ou meras desconhecidas. A mesma distância que, poucas horas depois, daria margem ao seu breve envolvimento com a “Mulher da Peruca Loira” é também a que em nada altera seu encontro com Faye, a garçonete, que, por mais perto que estivesse, estava fadada a outro homem: o policial 663.

A sofisticada transição marca a passagem da primeira para a segunda história. 223, em sentido oposto, vê na traficante o encanto feminino e o instinto de desvendar o mistério, como pede seu ofício. Ela, acostumada à indiferença, sucumbe momentaneamente ao permitir-se sentir vulnerável depois de muito tempo. Não sabemos o que aconteceu, nem o que irá acontecer. E não há por que sabê-lo: estamos diante de um filme que não se submete à convenção ocidental de oferecer respostas ou à pretensão de um desfecho. Trata-se apenas do instante que ilustra, desde já, aquilo que poderia ter sido.
663, por sua vez, antes reticente, teve sua vida literalmente revirada pela espevitada Faye, que estava no lugar certo na hora certa, bem, “certo” em sentido completamente subjetivo. Ao som de ‘California Dreamin’, de The Mamas & the Papas, desenvolvem uma relação dúbia e, de alguma forma, pueril, suspensa entre o acaso e o livre-arbítrio. Assim como Faye, indecisa entre a Califórnia e o California Café, divide-se entre o impulso de partir e o desejo de permanecer, ainda que por um só momento.
Kar-wai nos mostra, com sua linguagem estilizada e original, como um mundo repleto de possibilidades pode ser, ainda assim, profundamente solitário, sobretudo pela efemeridade das relações. Por meio dos agora famosos movimentos de câmera que aceleram o fluxo da cidade e dos personagens, que deixam rastros de seus corpos, o diretor conta as histórias de 223, 663, Faye e da Mulher da Peruca Loira, mas também do tempo que corre ao redor deles.
Mostra ainda que esforço e força de vontade nem sempre bastam para nos levar até aquilo que desejamos. Afinal, há coisas que simplesmente escapam ao nosso controle e, diante do aleatório, o que resta é decidir o que faremos com os 0,01 cm que nos separam de quem quer que seja.
“- Não sei para onde isso está me levando. Você sabe?
– Não faço ideia, mas vou te dar outra.
– Ótimo.
– Para onde você quer ir?
– Onde você quiser me levar.”

Advogado, capixaba e vascaíno.
