Nota do Filme :

“Um rosto… uma frota… uma guerra… um homem… um pensamento… um truque… um truque para quebrar as muralhas de Troia… e queimá-las gritando no chão!”
Bardo
A Odisseia segue a jornada de Odisseu (Matt Damon), herói grego, para retornar a Ítaca após a Guerra de Troia. No caminho, enfrentará figuras da mitologia grega como o Ciclope Polifemo, as Sereias e Calipso. Ao mesmo tempo, na sua cidade natal, seu filho Telêmaco (Tom Holland) lida com a sua ausência, tentando evitar que a sua mãe, Penélope (Anne Hathaway) tenha que contrair novo matrimônio.
Christopher Nolan, decerto, é um dos nomes que mais atrai atenção no mundo cinematográfico, para o bem e para o mal. Se alguns o colocam em um pedestal, outros gritam aos quatro ventos que ele seria, apenas, um “diretor superestimado”. É inequívoco, porém, que ele consegue, ainda hoje, levar multidões ao cinema, seja com conceitos originais – A Origem – seja em adaptações – O Cavaleiro das Trevas.
Em A Odisseia, temos um poema épico da Antiguidade clássica, atribuído ao poeta grego Homero. Na história, é relatado o retorno do herói Odisseu – também conhecido no Brasil como Ulisses –, que, após dez anos de guerra, vive mais dez anos de aventuras até finalmente regressar à sua casa e matar os pretendentes que fazem estão a cortejar a sua esposa Penélope.

Adaptar esta obra é, inegavelmente, uma tarefa hercúlea – para aproveitar a temática grega –, sobretudo em uma época que muito se discute a capacidade de atenção da audiência. O advento do TikTok e vídeos de curta duração, a possibilidade de se assistir à Netflix em 2x, enfim, tudo vai na contramão de filmes de longa duração. Portanto, um épico grego de quase 3h de duração é, no mínimo, um desafio.
Nolan, porém, não parece ser o tipo de profissional que foge de situações complicadas. Há interesse em retratar a figura inventiva – e perturbada – de Odisseu, algo razoavelmente parecido com o que lhe instigou a dirigir o seu último projeto, sobre a controversa figura de Oppenheimer.
A Odisseia não se limita a retratar apenas uma simples lista de monstros e batalhas, mas, se estrutura em torno da psique de seu protagonista, e o trauma que suas ações em Troia o fazem carregar. O longa, então, sequer tenta apresentar plot twists ou, ainda, “reinventar a roda” para uma história de mais de 3000 anos, mas foca em aspectos diferentes a explorar a passagem do tempo e culpa do sobrevivente.
Em que pesem as canções retratarem a guerra com um quê de exaltação, Odisseu sente o peso das suas escolhas, tanto as boas quanto as más, e deve reencontrar a força para, finalmente, retornar à sua casa, para junto da sua esposa e filho. Ítaca, então, é mais do que apenas um destino geográfico, mas também uma busca por redenção, de modo que a sua volta apenas pode ocorrer quando, efetivamente, houver autoperdão.

É significativo, então, que a canção que retrata a queda de Troia destoe, e muito, da representação visual dessa invasão. A violação aos costumes da época, com uma falsa oferenda à Deusa Atena traz a vitória, contudo, o custo é alto demais para ser mensurado, ao menos no momento. A quebra definitiva da Lei de Zeus destrói a hospitalidade e a confiança. A queda de Troia, portanto, não é uma vitória, mas, o começo do fim. E o protagonista sabe disso.
O desejo de voltar ao seu lar, contudo, fala mais alto, e Odisseu encara provações severas: desde o ciclope Polifemo, que clama a Poseidon que mate os seus adversários, passando pelos gigantes Lestrigões, impiedosos e sanguinários, até a feiticeira Circe (Samantha Morton) e a animalização do homem, em uma das melhores – e mais tensas – sequências da história. Além destes, muitos outros permeiam a obra.

Tudo isso é trazido à vida com a ótima direção de Nolan e uma brilhante execução por parte de todos os atores envolvidos. O destaque fica para Matt Damon, como era de se esperar, mas também com Samantha Morton que, em seu pouco tempo de tela consegue evocar um tipo particular de terror.
Por fim, seria relapso não mencionar a trilha sonora composta por Ludwig Göransson, que traz harmonia a todos esses elementos dispersos. É justo dizer que, caso a trilha sonora ficasse a cargo de mãos menos competentes, toda a narrativa sofreria.
Em suma, A Odisseia prova que o maior mérito de Christopher Nolan não está no espetáculo visual de suas criaturas ou na escala monumental de suas batalhas, mas na capacidade de transformar o maior mito da humanidade em um íntimo estudo sobre a culpa e a sobrevivência. Ao alinhar a grandiosidade técnica à vulnerabilidade humana, o diretor entrega uma obra-prima madura que não apenas honra o legado de Homero, mas também reafirma o cinema como o grande templo do épico moderno.

Carioca, advogado e apaixonado por cinema. Busco compartilhar um pouco desse sentimento.
