Crítica | Obsessão (Obsession) [2026]

Nota do Filme:

“Eu gostaria que Nikki me amasse mais do que qualquer pessoa no mundo.”

Bear

Obsessão segue Bear (Michael Johnston), um romântico incorrigível que trabalha em uma loja de instrumentos musicais e tem uma paixonite por Nikki (Inde Navarrette), sua colega de trabalho e amiga de. Um dia, ele decide comprar um brinquedo sobrenatural conhecido como one wish willow, que prometia lhe conceder um desejo, oportunidade na qual pede pelo amor de Nikki, porém, as coisas rapidamente fogem do seu controle.

O conceito de monkey’s paw foi cunhado pelo novelista W. W. Jacobs em um conto de terror publicado em 1902. Em resumo, trata-se de um item mágico que atende a desejos, entretanto, o faz de forma distorcida e com consequências imprevisíveis. Não há uma tradução exata para o termo – para além de “cuidado com o que você deseja” –, mas, é algo bastante utilizado em mídias estrangeiras, sobretudo americanas.

Portanto, a trama do filme não é particularmente inovadora, o que não é um problema. Às vezes, utilizar-se de uma ideia preexistente abre espaço para que se possa focar em outros aspectos da história, contando-se uma narrativa amarrada e coesa, campo no qual Obsessão se destaca como poucas obras recentes.

O roteiro de Curry Barker é extremamente conciso e direto, utilizando-se de um conceito já conhecido para criar uma atmosfera tensa e carregada. Uma paixão artificial, mas, incrivelmente forte – me amasse mais do que qualquer pessoa no mundo –, é o cenário ideal para abordar os perigos não narrados de um amor descontrolado.

Há, também, um quê de estranheza à la Corrente do Mal que permeia toda a obra, do melhor jeito possível. As reações que envolvem o one wish willow e o modo como parece haver uma verdadeira fábrica cria uma atmosfera familiar, porém estranha ao mesmo tempo. A naturalidade com que desejos sem limites são tratados pelos vendedores da loja do one wish willow – com direito a SAC e tudo – acrescenta ao caráter cômico.

Trata-se, então, de uma verdadeira comédia romântica de terror. Um “gênero” curioso, mas que, contra todas as expectativas, funciona de forma fenomenal. A direção – também de Barker – se aproveita bastante da iluminação para forjar algo além dos tradicionais jump scares que fomos condicionados a esperar, mantendo sempre a tensão e o terror sob a superfície.

Uma narrativa com base em um “romântico incorrigível” que, ainda que inadvertidamente, retira toda a capacidade de escolha da sua amada. Afinal, se o amor é imposto por meio de um desejo, há consentimento? Afinal, se o amor é imposto por meio de um desejo, a pessoa amada ainda é a mesma? Obsessão não se furta a apresentar respostas claras a essas indagações, ainda que sejam abordadas de forma tangencial, por trás do horror e da comédia.

Em seu último ato, o filme se utiliza de toda a pressão acumulada nas suas quase duas horas e explode de forma violenta e sangrenta. Os problemas criados, as soluções apresentadas, tudo chega ao fim, para o bem ou para o mal.

A edição apara qualquer gordura e excesso que pudesse haver aqui, criando uma história concisa e direta, do melhor jeito possível. Inexiste cena desnecessária ou momentos que se estendem para além do preciso. No longa, tudo gira em torno do relacionamento central entre o “casal” protagonista, e como isto os afeta – bem como a todos ao seu redor.

Justamente por isso as performances são, talvez, o aspecto mais importante para a trama e, felizmente, temos aqui um ponto forte de Obsessão. Michael Johnston convence como o arquétipo do “cara legal” que, aos poucos percebe os horrores das próprias ações e o dilema moral que sente.

O claro destaque é a atuação de Inde Navarrette, que transita de forma fluída entre a comédia e o terror. A dualidade de uma personagem dividida pela sua personalidade original e um amor imposto por forças sobrenaturais. É possível traçar comparações com Toni Collette em Hereditário ou Lupita Nyong’o em Nós? O tempo dirá, entretanto, é justo dizer que a sua atuação deve atrair, ao menos, atenção para papéis futuros.

Sendo assim, Obsessão é um ótimo lançamento para 2026 e deve atrair, sobretudo, aos fãs do terror. Com uma narrativa amarrada e concisa, resta acompanhar o próximo trabalho dos envolvidos na expectativa de novas surpresas.