Há filmes que reafirmam uma verdade fundamental sobre o próprio cinema: a de que a grandiosidade não está necessariamente associada à escala. Sem recorrer a efeitos dramáticos evidentes, a reviravoltas narrativas ou a uma constelação de personagens, Dias Perfeitos demonstra como a economia de elementos pode, paradoxalmente, ampliar a experiência estética.
Costuma-se dizer que um bom filme revela a que veio nos primeiros dez minutos, ou, em termos de escrita, nas primeiras dez páginas de roteiro. É nesse intervalo que se manifesta a alma da história, o tom, o contexto, a atmosfera e a persona do protagonista.
Como nos grandes romances, a abertura define a primeira impressão narrativa; se ela não se firma ali, dificilmente o fará adiante. Dias Perfeitos poderia encerrar-se nessas primeiras cenas e já teria cumprido algo raro. Em poucos minutos, sabemos quem ele é, o que faz, como vê o mundo. Aqui, cada dia equivale a uma vida inteira.

Wim Wenders, que em Paris, Texas (1984) transformou o silêncio e a estrada em instrumentos de uma busca identitária, encontra aqui um movimento inverso: não há busca. A delicadeza da direção somada à sensibilidade do ator Kōji Yakusho, Palma de Ouro em Cannes, constrói uma presença tão densa e verdadeira que o espectador desejaria acompanhá-la indefinidamente, ainda que apenas limpando banheiros.
A fotografia retrata Tóquio como um organismo vivo, e Hirayama, sempre atento ao céu, um observador privilegiado de seus ritmos. A câmera alterna entre o nosso olhar e o dele, o de um zelador que contempla o mundo com a acuidade de um artista. Em dado momento, diretor, personagem e espectador parecem se fundir numa mesma percepção atenta e desprovida de pressa.
Assim como o cinema, a vida também se revela, em seus momentos mais honestos, surpreendentemente simples. Uma reflete o outro, e Dias Perfeitos explora esse espelhamento com notável consciência. O protagonista segue religiosamente a rotina que escolheu, ou que lhe foi dada. Sorri diante do céu ao acordar, saboreia seu café, ouve sua música, cuida de suas plantas, executa seu trabalho. Um trabalho que, para muitos, como seu colega, parece não fazer sentido: “para que limpar, se logo vão sujar de novo?”. Há uma inegável ternura no modo como ele o faz, porém.
No olhar, quase nunca na fala, habita um altruísmo sincero. Diz sua pretendente platônica que o autor do próximo livro que ele carrega nos braços, entre tantos que lê antes de adormecer, se parece com ele: poucas palavras, muito a dizer.
A serenidade diante da tragicomédia cotidiana só é possível porque ele aceita suportar o que for preciso. Na concepção de Pepe Mujica, o presidente mais pobre do mundo, a cultura é como um guarda-chuva invisível, sempre sobre nossas cabeças, moldando pensamentos, atitudes e escolhas.
O conhecimento, como proteção, filtra o que há de nocivo e bruto no mundo, não como ferramenta de dominação, mas como lente diante da miopia da ignorância. Uma lente, e uma proteção, onde o ser vale mais que o ter. Se assim for, a rotina modesta e solitária torna-se deleite para quem encontra, na música, na literatura e no olhar atento às pequenezas, o próprio fundamento da existência.

“Por que as coisas não ficam iguais?”
Wenders não responde. Tampouco Hirayama. A frase surge como indagação retórica num momento de consternação diante da notícia de um divórcio, e da incerteza sobre como alguém, subitamente sozinho, deverá se reconhecer como indivíduo. Às vezes, a mudança, por menor que seja, é tão difícil de encarar que nem o marasmo, ou, pior, a infelicidade, são suficientes para motivar qualquer desvio de rota.
Porque, no fundo, as coisas não são simples. Nem o cinema, nem a vida. No primeiro, a escolha pelo estilo contemplativo, sutil e quase mudo caminha no fio tênue entre o poético e o pretensioso. É infinitamente mais difícil fazer um bom filme nesse registro do que um ruim. Ele exige competência técnica, roteiro, atuação, câmera, mas não apenas isso.
O filme opera por repetição deliberada — as mesmas ações, os mesmos horários, a mesma sequência —, e é justamente nessa repetição que o desvio, quando ocorre, ganha peso dramático desproporcional. Para além da forma, a mensagem precisa alcançar alguém. Mais que alcançar: precisa tocar, despertar algo que importe, que reverbere. E isso é quase impossível ao retratar a rotina de um zelador que limpa banheiros públicos em Tóquio. Wenders, no entanto, o faz.
Na segunda — a vida —, ser verdadeiramente independente é mais complexo do que aparenta. Uma existência plena, na maioria das vezes, passa pela reciprocidade e pela materialidade, juntas. Aliás, a simplicidade, geralmente, costuma vir acompanhada de uma certa insatisfação. Pode um limpador de banheiros solitário ser, de fato, feliz?
A plenitude, contudo, vem da liberdade que provém da cultura, o que Mujica entenderia por ser verdadeiramente “culto”. Hirayama, encabulado, recusa o rótulo quando chamado de intelectual: “eu não diria isso“, responde. Mas as músicas, os livros, as plantas, os caminhos, os labores, os convívios, tudo isso importa mais do que se consegue medir. No caso de Hirayama, o zelador, parecem importar mais até que a própria existência. Ou melhor, são exatamente o que a motiva.
O filme, que já sabemos não ser tão simples, revela como a música não apenas embala o ritmo da vida do protagonista, mas também dita o nosso, fora da tela. A trilha sonora narra o que estamos vendo: do “dia que nasce”, passando pelos “dias perfeitos”, até o “dia seguinte”, ela traduz o que não necessariamente se vê. E no fim, como na vida, complexa, um passo fora do trilho, um encontro inesperado, uma notícia, um contato com o passado, por um segundo ou por um ano, que seja, muda tudo.
De novo. De novo. E de novo.

Advogado, capixaba e vascaíno.
