Crítica | Doutor Estranho (Doctor Strange) [2016]

Nota do filme:


– Eu não estou pronto
– Ninguém nunca está. Você não escolhe o momento. Morte é o que dá sentido à vida. Saber que seus dias estão contados.

Diálogo entre Dr. Estranho e Anciã.

Bem-vindos ao multiverso da Marvel! Após 13 filmes o estúdio está pronto para nos apresentar seu lado místico e não tem vergonha do que pode oferecer.

De início o longa mostra a que veio e começa com uma bela sequência que mexe com nossas percepções sobre realidade, mas sem nos dar explicações, levantando mais perguntas do que fornecendo respostas, a cena prepara o terreno e serve como o aviso do que é repetido algumas vezes em cena: esqueça tudo que você acha que sabe. Em seguida, a história prossegue com o que tem de melhor: seu protagonista.

Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um ambicioso neurocirurgião de sucesso que após um acidente – ironicamente causado pela própria arrogância – causa sequelas em suas mãos que o obrigam a interromper a carreira. Após perder toda sua fortuna e esperança com a medicina ocidental, decide ir até Katmandu, Nepal, a procura da lendária Kamar-Taj que, aparentemente, é o único lugar na terra que pode solucionar seu caso clínico.

Apesar de ser um filme de super-herói e trabalhar no seguro dentro da já famigerada Fórmula Marvel com um roteiro familiar de origem, o longa não tem medo de um primeiro ato mais demorado para que possa trabalhar bem as camadas de seu protagonista.

Construído com excelência por Cumberbatch, Strange é arrogante ao mesmo tempo que é inseguro, determinado, relutante, arguto. E mais. Durante sua trajetória passa por uma crise de identidade e um exame de consciência que lembra muito Homem de Ferro (2008) mas que – os fã me perdoem – não havia sido anteriormente trabalhado com tamanho cuidado e com tantas camadas pelo MCU.



Entretanto, o que excede no médico, falta em seu vilão. Se o filme toma tempo e fôlego para preparar seu herói, ocorre o exato oposto com seu rival. Ainda que  Mads Mikkelsen entregue uma boa performance como o determinado Mestre Kaecilius com uma lógica até compreensível, o texto não lhe favorece e a falta de uma história de origem convincente impede que empatizemos com suas motivações.

Outra grande prejudicada é Christine Palmer neurocirurgiã ex-colega e ex-namorada de Strange, a personagem está presente para reagir a situações e ser a conexão do feiticeiro com o mundo terreno. Rachel McAdams está competente e carismática, mas o roteiro não permite que faça muito além disso – embora protagonize uma cena que provavelmente vai partir seu coração.

Mordo (Chiwetel Ejiofor) e a Anciã (Tilda Swinton) sofrem com isso em menor grau. Melhores escritos, os personagens são mais multidimensionais e não apenas funções narrativas para a história avançar. É interessante notar que Mordo tem neste longa também uma história de origem paralela a de Strange, e o personagem provavelmente será melhor explorado em um futuro pós Ultimato.

Tilda entrega uma ótima interpretação, sua personagem, depois de Strange, é a mais interessante. Misteriosamente divertida, as vezes cínica, mas seguramente sábia, a Anciã nos abre a porta de incontáveis realidades para Stephen e possibilidades narrativas e visuais para o futuro da franquia. Além disso, ela e Doutor Estranho protagonizam o mais belo diálogo de toda a franquia do MCU – até o momento em que este texto é lançado, pelo menos.


É também este um dos filme visualmente mais bonito da Marvel, e um dos pouquíssimos em que o 3D fez diferença. Os efeitos computadorizados ainda que lembrem muito A Origem (2010), são aqui realizados em maior escala e liberdade criativa que o gênero e a história permitem.

Por fim, o embate que se dá entre o herói e o grande vilão é sagaz e criativo e foi a primeira vez que a o estúdio se arriscou em um desfecho diferente e inventivo para o climax de um de seus filmes, o que o fecha de modo muito positivo.

Doutor Estranho segue a narrativa formuláica de histórias de origem dos super-heróis da Marvel, não conta com um grande vilão, nem foi tão visualmente inovador quanto prometeu, mas está longe de ser uma história de heróis genérica graças a profundidade com que trabalha seu protagonista, entrega excelentes atuações e abre-nos um multiverso de infinitas possibilidades.