Cinematologia na Copa – Marrocos

Localizado no norte do continente africano, o Marrocos se tornou independente da Espanha e da França apenas no ano de 1956. Porém, mesmo sem as amarras coloniais, o país ainda é liderado por uma monarquia constitucionalista, chefiada pelo rei Maomé VI. A tardia autonomia e a censura duradoura refletiu diretamente na indústria cinematográfica do país que começou a se desenvolver de maneira muito vagarosa. O boom de produções nacionais que alcançaram a fama no estrangeiro começou apenas no final da década de 90, com a presença de novos diretores no circuito de cinema.

A revitalização da indústria do país passou diretamente pela criação do Festival Internacional de Cinema de Marrakech, fundado em 2001. Mesmo hoje, a filmografia, os atores e os diretores marroquinos carregam consigo uma quase onipresente dupla cidadania. A maioria esmagadora das produções têm o dedo de um profissional franco-marroquino, resquícios da influência de seu colonizador que determinou por anos o caminho seguido por seu cinema.

Quando o assunto é Oscar, o reino árabe enviou 13 produções originais para a disputa de melhor filme estrangeiro, sendo que a primeira delas participou da lista no ano de 1977. Dentre todos os envios, apenas o filme Omar Me Matou (Omar m’a tuer) (2011), conseguiu passar da primeira fase de seleção, sendo eliminado na pré-lista da premiação feita em janeiro. O diretor Nabil Ayouch é quem lidera o ranking de pré-selecionados, com quatro filmes na disputa.

Nesse texto, que faz parte do especial do Cinematologia para a Copa do Mundo da Rússia, vamos procurar indicar alguns filmes, além de comentar sobre o principal diretor e o principal ator do país presente no grupo B da competição de seleções mais importante do planeta.

Macha Méril

Nascida na cidade de Rabat, Macha é uma das maiores atrizes do cinema marroquino. Filha de pai russo e mãe ucraniana, a artista é muito reconhecida por seus trabalhos como atriz, de cinema e de teatro, e como escritora. Indicada ao prêmio de melhor atriz coadjuvante no César Awards – uma das honrarias mais reconhecidas pelos amantes de cinema – pelo filme Os Renegados (Sans toit ni loi) (1985), Méril teve a honra de trabalhar com alguns dos diretores mais consagrados da história da sétima arte. Durante seus quase 60 anos de carreira, já atuou em filme de Jean-Luc Godard, Luis BuñuelRainer Werner FassbinderDario Argento e Agnès Varda.

Alguns filmes de destaque da carreira de Macha Méril:

  • Os Renegados (Sans toit ni loi) (1985)
  • Prelúdio para Matar (Profondo rosso) (1975)
  • A Bela da Tarde (Belle de jour) (1967)
  • Uma Mulher Casada (Une femme mariée: Suite de fragments d’un film tourné en 1964) (1964)
  • Roleta Chinesa (Chinesisches Roulette) (1976)

Nabil Ayouch

Considerado como o maior nome da nova geração de diretores do Marrocos, Nabil Ayouch é, na verdade, franco-marroquino – como a maior parte das produções e dos artistas de sucesso do país. Nascido em Paris, Nabil morou grande parte de sua vida na cidade de Casablanca, a mais populosa da nação africana. Após iniciar a sua carreira como diretor em uma agência de propagandas, dirigiu três curtas de muito sucesso que aumentaram sua projeção internacional.

Mesmo com pouco tempo atrás das câmeras, Nabil conseguiu emplacar alguns sucessos de crítica dentro e fora do país. Quatro de seus filmes foram selecionados para figurar na lista dos pré-indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro e duas obras concorreram a prêmios no festival de Cannes. No ano de 2012, dirigiu Os Cavalos de Deus (Les chevaux de Dieu), vencedor da premiação François Chalais, em Cannes, que premia o principal filme dedicado ao valores de afirmação da vida e ao jornalismo, além de marcar presença no prêmio, Un Certain Regard, a competição paralela mais importante do festival. Já Em 2015, Muito Amadas (Much Loved) esteve presente na Queer Palm, prêmio que coroa o melhor filme com temática LGBT no festival francês.

Filmes de destaque da carreira de Nabil Ayouch:
  • Mektoub (1997)
  • As Ruas de Casablanca (Ali Zaoua, prince de la rue) (2000)
  • Os Cavalos de Deus (Les chevaux de Dieu) (2012)
  • Muito Amadas (Much Loved) (2015)
  • Primavera em Casablanca (Razzia) (2017)

Omar Me Matou (Omar M’a Tuer) (2011)

No ano de 1991, Ghislaine Marchal, uma senhora rica que morava sozinha em sua casa, foi encontrada morta no porão. Na parede ao seu lado, escrito em sangue, estava o recado: “Omar me matou”. Mesmo sem nenhuma evidência forense, testemunha ou prova que confirmasse a veracidade da afirmação, o jardineiro marroquino, Omar Raddad (Sami Bouajila), foi condenado a 18 anos e prisão por assassinato seguido de roubo. Certo da inocência do rapaz e chocado com a decisão afrontosa do tribunal, o jornalista Pierre-Emmanuel Vaugrenard (Denis Podalydès) vai até Cannes para tentar descobrir a verdade sobre o caso.

Dirigido por Roschdy Zem, o filme foi baseado em um acontecimento real que resultou em um livro escrito pelo jornalista que seguiu o caso. Representado como uma história de tribunal onde sabemos, desde o primeiro minuto, que o acusado é completamente inocente, a obra vai caminhando e se desenvolvendo de uma maneira a tornar o espectador cada vez mais simpático à história de Omar. As escolhas do diretor resultam em cenas que apenas corroboram, muitas vezes de maneira desnecessária, o que já temos certeza: um inocente foi condenado por um crime terrível apenas por ser um imigrante africano que estava no local errado.

Febre (Fièvres) (2013)

Benjamin (Didier Michon) é um pré-adolescente de 13 anos que passou toda a sua vida entre os lares de orfanatos, dividindo espaço com crianças que nasceram sem qualquer tipo de afeto. Ao descobrir que sua mãe foi presa, o jovem prontamente decide ir atrás do pai desconhecido afim de experimentar um pouco de liberdade. Morador do subúrbio e progenitor da criança, Karim (Slimane Dazi) habita na casa paterna enquanto experimenta a mediocridade que escolheu viver. Com a “nova” família, o garoto prova que os duros anos no reformatório criaram uma espessa casca de falta de amabilidade, insolência e arrogância.

O filme carrega uma grande dose de originalidade e identidade visual. Os planos entre claro e escuro e a fotografia escolhida pelo diretor Hicham Ayouch ornam completamente com a dureza e a falta de empatia que permeia as relações sociais no filme. Sendo um competente estudo de personagem, dificilmente a obra não irá provocar algum tipo de sentimento (bom ou ruim) no espectador.