{"id":9713,"date":"2018-06-29T19:45:29","date_gmt":"2018-06-29T22:45:29","guid":{"rendered":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/?p=9713"},"modified":"2019-05-05T20:40:29","modified_gmt":"2019-05-05T23:40:29","slug":"critica-a-ghost-story","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/critica-a-ghost-story\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica | Sombras da Vida (A Ghost Story) [2017]"},"content":{"rendered":"\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Combinar um elemento dram\u00e1tico com a roupagem do cinema independente sempre deu muito certo para manter o ritmo saud\u00e1vel de uma narrativa. N\u00e3o existem regras produtivas sendo seguidas com uma for\u00e7a\u00e7\u00e3o triste de se assistir ou elementos visuais surpreendentes de um&nbsp;<em>show off&nbsp;<\/em>inconsistente no que realmente importa: a mensagem que se deseja passar atrav\u00e9s da tela.&nbsp;<strong><em>A Ghost Story<\/em><\/strong>&nbsp;n\u00e3o \u00e9 um filme incr\u00edvel ou inesperado para o talento germinante na cena dos dramas com essa caracter\u00edstica minimalista e aprofundada. Existe uma previsibilidade clara em cada uma das cenas, mas isso n\u00e3o impede o filme, a dire\u00e7\u00e3o ou o pr\u00f3prio roteiro de serem indiferentes com as emo\u00e7\u00f5es do p\u00fablico. O longa, curto para a hist\u00f3ria que tem, consegue entrar em qualquer um com essa incr\u00edvel humildade.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 resumida e enxuta, buscando levantar uma abordagem sobre a resili\u00eancia tanto espiritual como humana diante de um evento decisivo que desencadeia uma temporada de vertiginosas mudan\u00e7as aos protagonistas. Assistir a transi\u00e7\u00e3o dos eventos e suas consequ\u00eancias cada vez mais claras a dos pr\u00f3prios personagens n\u00e3o \u00e9 algo direcionado pelo roteiro, mas pelo bom trabalho de uma t\u00e9cnica visual particular do diretor. Lowery passa longe de comprometer o filme com a morbidez dos cen\u00e1rios, dos personagens e o cansa\u00e7o da c\u00e2mera em cada uma de suas capta\u00e7\u00f5es das principais cenas. Quanto ao que \u00e9 mais r\u00e1pido, h\u00e1 uma brusca utiliza\u00e7\u00e3o do som como um despertar do sil\u00eancio do filme. O filme \u00e9 completamente mudo em signific\u00e2ncia, mas profundamente coeso em sensa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<em>A Ghost Story<\/em>&nbsp;n\u00e3o utiliza mais do que uma instigante sensa\u00e7\u00e3o deixada em cada um de seus trechos para que o espectador perca o seu tempo procurando o significado em cada lam\u00faria, desgosto e melancolia pingada sobre a dire\u00e7\u00e3o de arte muito satisfat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image wp-caption aligncenter\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/operiodiconulo.files.wordpress.com\/2017\/10\/gs1.jpg?w=790\" alt=\"GS1\" class=\"wp-image-968\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Como o longa n\u00e3o perturba da maneira que seu trailer parece insinuar com o formato, ele crava uma importante e atropelada sensa\u00e7\u00e3o do drama moderno de subjetivismo. A eventualidade da perda, j\u00e1 t\u00e3o explorada no conte\u00fado dram\u00e1tico, n\u00e3o se reinventa com o tempo sen\u00e3o em cen\u00e1rio e personagens.&nbsp;Aqui acontece um debate filos\u00f3fico sobre vida, morte, conformidade e finitude. Nada que \u00e9 continua a ser para sempre, nem mesmo a denota\u00e7\u00e3o mais geneal\u00f3gica e expressiva da arte, seja ela de qual segmento for. Um abra\u00e7o, um presente, uma recorda\u00e7\u00e3o ou um compromisso h\u00e1 muito selado, tudo se perde no vazio do tempo que tudo devora em sua passagem. Essa tr\u00e1gica serventia do filme para o p\u00fablico desconforta no momento em que reflete consequ\u00eancias claras do que \u00e9 realmente ser humano. Antes governando sentimentos na matriz do amor e de todas as sensa\u00e7\u00f5es mais puras e metaf\u00edsicas, aqui h\u00e1 uma mistura forte o suficiente de ci\u00eancia, sociedade e filosofia capaz de inibir o altru\u00edsmo e preencher seu espa\u00e7o com profunda ressaca sentimental em qualquer um.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa expressiva vis\u00e3o de <strong>Lowery (Rooney Mara)&nbsp;<\/strong> para o drama contido em&nbsp;<em>A Ghost Story<\/em>&nbsp;esclarece e justifica alguns usos do visual e do sonoro em tantas passagens. A trilha, imposs\u00edvel de ser deixada de lado na completude da obra, sinfoniza uma jornada de descobrimento, passividade e nulifica\u00e7\u00e3o emocional por <strong>Casey Affleck<\/strong>. Ainda que no fim, descobrir que tudo \u00e9 uma linha s\u00f3lida e imperme\u00e1vel de um filme que um dia encontrar\u00e1 seu t\u00e9rmino, d\u00e1 ao trabalho do ator uma responsabilidade de retrata\u00e7\u00e3o muito forte diante do seu papel como testemunha de tudo aquilo. As emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o omitidas diante do pano branco. Tudo aqui \u00e9 vis\u00edvel e sentido pelo cen\u00e1rio e pela c\u00e2mera. Durante a primeira metade do filme j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ao espectador aprender a viver junto ao vagante fantasma. A dificuldade aqui \u00e9 a de compreender o que est\u00e1 acontecendo e o motivo de tudo aquilo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image wp-caption aligncenter\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/operiodiconulo.files.wordpress.com\/2017\/10\/gs2-south-china-morning-post.jpg?w=790\" alt=\"GS2 South China Morning Post\" class=\"wp-image-972\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Os poucos personagens ativamente presentes em cenas n\u00e3o poupam em justificar suas exist\u00eancias diante do que a c\u00e2mera ordena em previsibilidade que fa\u00e7am. As emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem captadas apesar da aus\u00eancia de explica\u00e7\u00f5es diretas e respostas gratuitamente dadas pelo roteiro, o que aqui torna-se saud\u00e1vel para a compreens\u00e3o completa da obra. Casey Affleck e Rooney Mara desempenham bem a funcionalidade dos seus personagens dentro da trama. O destaque para Casey \u00e9 \u00f3bvio, mas a forma como as cenas de Rooney Mara, ainda que subtra\u00eddas do contexto maior de apari\u00e7\u00e3o do ator, categorizam ela na mesma linha de desafios quanto a externaliza\u00e7\u00e3o do que a personagem passa. Nada \u00e9 em v\u00e3o diante das cenas vazias dentro da casa j\u00e1 t\u00e3o moribunda quanto a pr\u00f3pria vontade de viver nela pela personagem. \u00c9 desencadeado por isso que a segunda metade do filme (a mais visceral no seu significado) toma igni\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea e compreens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Julgar o longa de Lowery como uma pe\u00e7a do pol\u00eamico \u201dp\u00f3s-horror\u201d \u00e9 um erro t\u00e3o grande quanto classific\u00e1-lo como do pr\u00f3prio g\u00eanero de horror habitual. N\u00e3o existem padr\u00f5es claros e suficientemente did\u00e1ticos dentro da trama para a cria\u00e7\u00e3o da rampa que d\u00e1 para um susto ou para uma traumatizante experi\u00eancia sensitiva f\u00edsica. O enquadramento de filmes assim muito se assemelha ao formato contista, n\u00e3o s\u00f3 pela sua dura\u00e7\u00e3o, mas pelo que engloba em t\u00e3o pouco tempo e com tamanha imers\u00e3o usando poucos elementos narrativos, mas reinventados. A manuten\u00e7\u00e3o da qualidade (ou tipologia) de filmes assim muito vem da tentativa vanguardista pelo que n\u00e3o se concebeu ainda em obras anteriores. O exemplo que n\u00e3o pode ser deixado de fora aqui \u00e9 o de<strong>&nbsp;<em>Ghost: Do Outro Lado da Vida<\/em><\/strong>, que embora j\u00e1 ultrapassado hoje no modelo dram\u00e1tico, ainda consegue preservar grande significado para o in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 e o marco zero das quest\u00f5es existenciais de filmes assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o com a mensagem do filme t\u00e3o lentamente desembrulhada a cada cena faz com que a sua conclus\u00e3o seja inesperada, r\u00e1pida e a \u00fanica parte sua em que realmente um susto pode ser captado. A justificativa desse susto n\u00e3o chega perto da surpresa, mas do que a quebra de todo o significado do filme naquele \u00fanico segundo representa. \u00c9 o momento em que se enxerga o fundo da caixa agora sem a sua tampa. O seu conte\u00fado \u00e9 emba\u00e7ado, mas no fundo vazio, como tudo em&nbsp;<em>A Ghost Story<\/em>. \u00c9 um filme que enxerga a reflex\u00e3o como a guia da hist\u00f3ria. Se preocupa com o p\u00fablico e a sua compreens\u00e3o final quase invari\u00e1vel diante do seu direcionamento. Os di\u00e1logos, embora raros, rasos e pouco substitutos do grande pano de fundo da hist\u00f3ria, conseguem retratar bem com uma titula\u00e7\u00e3o algumas p\u00e1ginas da trama. S\u00e3o anota\u00e7\u00f5es do que mais tarde ser\u00e1 perdido. O filme come\u00e7a, desenvolve e se conclui com o debate sobre o fim. O fim de tudo e de cada um, sem exce\u00e7\u00f5es a quem ou ao qu\u00ea. Do fim ningu\u00e9m pode fugir, e \u00e9 aqui onde o longa de Lowery acerta cada um de seus espectadores com maestria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Combinar um elemento dram\u00e1tico com a roupagem do cinema independente sempre deu muito certo para manter o ritmo saud\u00e1vel de uma narrativa. 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