{"id":9555,"date":"2018-06-26T22:40:00","date_gmt":"2018-06-27T01:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/?p=9555"},"modified":"2018-06-26T22:40:00","modified_gmt":"2018-06-27T01:40:00","slug":"cinematologia-na-copa-dinamarca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/cinematologia-na-copa-dinamarca\/","title":{"rendered":"Cinematologia na Copa &#8211; Dinamarca"},"content":{"rendered":"<p>Grata surpresa para esta copa, a n\u00f3rdica solit\u00e1ria aposta em decisivas arrancadas e jogadas alternadas para derrubar os grandes favoritos. No entanto, tirar os guerreiros de Copenhague de seu pa\u00eds para jogar bola \u00e9 quase um convite. Ainda com tempo e lugar decisivos como R\u00fassia em 2018, o Reino da Dinamarca passa longe de ser mencionado pelo seu jeito de levantar vit\u00f3rias improv\u00e1veis com t\u00e9cnicas ousadas. As duas coisas, no entanto, mergulham direto no fazer audiovisual do pa\u00eds. Com est\u00e9tica sempre meticulosa e elementos experimentais sempre bem aplicados, o pa\u00eds aposta na inova\u00e7\u00e3o em campo e nas telonas.<\/p>\n<p>A conhecida &#8221;dinam\u00e1quina&#8221; nos gramados de 1990, estuda a mesma estrat\u00e9gia h\u00e1 tempos para o cinema local. Tendo exemplares medidas pol\u00edticas de incentivo ao cinema criativo nacional, o experimental na terra do Lego \u00e9 um mero esfor\u00e7o di\u00e1rio de tornar comum o que na realidade \u00e9 s\u00f3 bem feito. Foi sendo germinado em uma cultura de cinema muito \u00fanica na d\u00e9cada de 90, que em 13 de mar\u00e7o de 1995, <strong>Lars von Trier<\/strong> e <strong>Thomas Vinterberg<\/strong>, ambos experimentalistas do novo cinema dinamarqu\u00eas da \u00e9poca, conceberam as esbo\u00e7adas regras do Dogma 95. Dez\u00a0\u2014 ir\u00f4nicos\u00a0\u2014 mandamentos completavam uma lista que, em suma, abolia o uso de qualquer viol\u00eancia ao visual de um filme que o destratasse ou distanciasse do realismo. Os filmes produzidos para o visionado carimbo final em seu projeto dispensariam coisas como truques anal\u00f3gicos ou digitais de luz, estabiliza\u00e7\u00e3o de filmagem\u00a0 e nomes finais que creditassem o diretor da obra.<\/p>\n<p>Foi tentando\u00a0\u2014 por total op\u00e7\u00e3o e prefer\u00eancia nacional\u00a0\u2014 frustrar a supervaloriza\u00e7\u00e3o de filmes comerciais do exterior, que os dinamarqueses cultivaram em sua cultura o costume de ir ao cinema com companhia, desfrutar de lan\u00e7amentos nacionais tanto quanto os de origem estrangeira e valorizar sem patriotismo estas mesmas obras. A ineg\u00e1vel qualidade e percep\u00e7\u00e3o da m\u00e3o dinamarquesa lan\u00e7a nomes como\u00a0<strong>Tobias Lindholm\u00a0<\/strong>e\u00a0<strong>Susanne Bier<\/strong>, que carimbam com for\u00e7a a bandeira nacional no cen\u00e1rio internacional. De dentro para fora, ao jeito dinamarqu\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Este texto faz parte de um especial da Cinematologia para a Copa do Mundo de 2018. Para conhecer um pouco mais o cinema de alguns dos pa\u00edses participantes, indicaremos produ\u00e7\u00f5es, atores e diretores que fizeram hist\u00f3ria dentro e fora do territ\u00f3rio nacional.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\">Mads Mikkelsen<\/h2>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-9564\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Madds-Mik.jpg?resize=459%2C459&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"459\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Madds-Mik.jpg?w=1200&amp;ssl=1 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Madds-Mik.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Madds-Mik.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Madds-Mik.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Madds-Mik.jpg?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Madds-Mik.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u00c9 comprovadamente imposs\u00edvel destacar s\u00f3 um grande contribuidor dinamarqu\u00eas para o legado do cinema contempor\u00e2neo. Para estar nesta posi\u00e7\u00e3o do texto como a \u00fanica pessoa presente a representar o Reino da Dinamarca,\u00a0<strong>Mads Dittmann Mikkelsen<\/strong> tem motivos muito espec\u00edficos. As constantes apari\u00e7\u00f5es de Mikkelsen aliadas a grandes e bem lapidadas produ\u00e7\u00f5es do cinema contempor\u00e2neo n\u00e3o s\u00e3o uma coincid\u00eancia. \u00c9 possivelmente o ator dinamarqu\u00eas mais influente da atualidade. Parte disso se deve ao talento com que carrega produ\u00e7\u00f5es de diferentes nacionalidades com incisivas interpreta\u00e7\u00f5es e uma incr\u00edvel adaptabilidade.<\/p>\n<p>Nascido em 22 de novembro de 1965, cresceu na efervesc\u00eancia da est\u00e9tica no s\u00e9culo XX, em meio aos Beatles e a TV colorida. O trato observativo de Mikkelsen para produ\u00e7\u00f5es estrangeiras providenciou desde cedo atalhos para o artista que, ainda que sempre seguisse a deixa das grandes produ\u00e7\u00f5es nacionais, seria lan\u00e7ado ao mundo por filmes mais comerciais, como <strong>Cassino Royale (2006)<\/strong> e <strong>Rei Arthur (2004)<\/strong>.<\/p>\n<p>Ainda que estampar a cultura de cinema dinamarquesa n\u00e3o seja o combust\u00edvel do ator, tampouco \u00e9 o de qualquer consagrador diretor no s\u00e9culo XXI. Sua indireta interven\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria vem de quando a Dinamarca ainda tratava de se encontrar no j\u00e1 aclamado cen\u00e1rio hollywoodiano internacional. Com a mesma refer\u00eancia do lugar que lembra uma escola e estil\u00edstica, buscava-se encontrar um referencial \u00fanico no aplique das obras dinamarquesas. N\u00e3o demorou para que na primeira arrancada dos anos 2000, Los Angeles tivesse o seu letreiro, enquanto Copenhaguen tivesse Mads Mikkelsen sentado nele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong>Festa de Fam\u00edlia (1998)<\/strong><\/h2>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9576 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/festen-1.jpg?resize=500%2C352&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/festen-1.jpg?w=968&amp;ssl=1 968w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/festen-1.jpg?resize=300%2C211&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/festen-1.jpg?resize=768%2C540&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/festen-1.jpg?resize=711%2C500&amp;ssl=1 711w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>O drama sobre um grupo de pessoas que se re\u00fanem em um pa\u00eds imponente para um anivers\u00e1rio de 60 anos foi feito sob um rigoroso conjunto de regras do Dogma 95, foi elaborado\u00a0por um quarteto de diretores dinamarqueses, incluindo Vinterberg e von Trier. Os &#8220;votos de castidade&#8221;, como os chamam, incluem o uso de apenas c\u00e2meras de m\u00e3o \u00e0 luz dispon\u00edvel. Supondo que os telespectadores n\u00e3o fiquem terminalmente enjoados com a cinematografia \u00a0\u2014 um artif\u00edcio parecido com a vis\u00e3o dos acontecimentos de um <em>bluebottle<\/em> maluco\u00a0 \u2014 <em>Festa de Fam\u00edlia<\/em> \u00e9 uma feroz disseca\u00e7\u00e3o da vida familiar.<\/p>\n<p>Come\u00e7a assim que os convidados se preparam para o jantar, misturando cenas de conversa jogada fora, preparativos fren\u00e9ticos na cozinha, sexo r\u00e1pido e a descoberta do bilhete de suic\u00eddio de uma irm\u00e3 j\u00e1 morta. O aniversariante \u00e9 <strong>Helge (Moritzen)<\/strong> e o foco principal est\u00e1 em seus tr\u00eas filhos, o inescrut\u00e1vel <strong>Christian (Thomsen)<\/strong>, o rude <strong>Michael (Larsen)<\/strong> e a emocional <strong>Helene (Paprika Steen)<\/strong>. Suas hist\u00f3rias se desenrolam com a versatilidade de uma forma sombria e c\u00f4mica, at\u00e9 que Christian solta uma bomba e a trama gira com um roteiro direto e \u00e1cido.<\/p>\n<p>Vinterberg n\u00e3o adota nenhuma posi\u00e7\u00e3o moral \u00f3bvia sobre o racismo, a brutalidade e a auto-ilus\u00e3o dos convidados, mas apenas v\u00ea-los em a\u00e7\u00e3o semelhante a um document\u00e1rio ser\u00e1 suficiente para desestabilizar a maioria dos espectadores \u00e0 medida que ricocheteia entre explos\u00f5es desagrad\u00e1veis e calmarias estranhamente confort\u00e1veis. Embora quase n\u00e3o exista um tra\u00e7o agrad\u00e1vel em exibi\u00e7\u00e3o e Vinterberg corteje controv\u00e9rsia com sua conclus\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como negar que algumas das restri\u00e7\u00f5es do D-95 injetam urg\u00eancia e surpresa no que poderia ter sido um assunto tediosamente est\u00e1tico. Algo que s\u00f3 o experimental pode causar com bons sustos vindos de uma estrutura estranha.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong>Entre o Bem e o Mal (2005)<\/strong><\/h2>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-9577\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Adams_Apples-min.jpg?resize=500%2C282&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Adams_Apples-min.jpg?w=735&amp;ssl=1 735w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Adams_Apples-min.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande chance de voc\u00ea j\u00e1 ter ouvido falar ou mesmo assistido o longa de 2005\u00a0<em><strong>Entre o Bem e o Mal<\/strong><\/em>, de Thomas Jensen. O que acontece aqui \u00e9 o fen\u00f4meno dos filmes comuns, que s\u00e3o assistidos em algum momento da vida at\u00e9 mesmo por acidente. Seja no trabalho, em casa ou na escola ou em uma aula muito espec\u00edfica da faculdade, ele o atingiu ou ainda atingir\u00e1. A hist\u00f3ria \u00e9 o grande motivo disso. Sendo roupa perfeita para um dos maiores conflitos sociais do s\u00e9culo XXI, a toler\u00e2ncia aqui \u00e9 inexistente, pois sobrevive no que o roteiro lhe d\u00e1 atrav\u00e9s de di\u00e1logos que se n\u00e3o forem lembrados, se perdem \u2014 uma pena.<\/p>\n<p>O filme engrena com <strong>Adam (Ulrich Thomsen)<\/strong> \u00e9 um neonazista que acabara de ser solto da pris\u00e3o para que prestasse servi\u00e7o comunit\u00e1rio, ainda que com algum desd\u00e9m da oportunidade.<strong> Ivan (Madds Mikkelsen)\u00a0<\/strong>estende a ele a oportunidade de aprender atrav\u00e9s de uma t\u00edmida mensagem religiosa o verdadeiro significado de viver entre os homens, sobretudo, existir. Com alguns di\u00e1logos poderosos e outros nem tanto, o filme se balan\u00e7a com o desafio de Adam de criar um bolo de ingredientes retirados da \u00e1rvore em frente a igreja em que a hist\u00f3ria se desenvolve na maior parte. Com grandes adversidades, a tarefa se torna algo realmente desafiador, mas estruturado para uma trama com uma grande moral final.<\/p>\n<p><em>Entre o Bem e o Mal<\/em>\u00a0\u00e9 um dos filmes da d\u00e9cada de 2000 que amplia bem o cinema dinamarqu\u00eas moderno. Se destacando principalmente no cen\u00e1rio e nos di\u00e1logos (e na pr\u00f3pria conversa\u00e7\u00e3o de ambos), sua capacidade de introduzir o mais leigo aos elementos visuais do cinema nacional, \u00e9 uma m\u00e3o na roda. Se por um acidente tenha lhe passado em branco a oportunidade de contemplar seus 90 minutos, podemos fingir que o cinema dinamarqu\u00eas visto hoje come\u00e7a lentamente por aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grata surpresa para esta copa, a n\u00f3rdica solit\u00e1ria aposta em decisivas arrancadas e jogadas alternadas para derrubar os grandes favoritos. 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