{"id":6265,"date":"2018-01-19T23:57:46","date_gmt":"2018-01-20T02:57:46","guid":{"rendered":"http:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/?p=6265"},"modified":"2019-04-15T19:37:50","modified_gmt":"2019-04-15T22:37:50","slug":"critica-roda-gigante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/critica-roda-gigante\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica | Roda Gigante (Wonder Wheel) [2017]"},"content":{"rendered":"\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">A filmografia de Woody Allen entrega sempre um corriqueiro romance galgado nas impraticidades de uma rotina desvairada ou de um comodismo desses mais casuais. O que quebra a no\u00e7\u00e3o de revisita de modelos j\u00e1 gastos na apar\u00eancia do diretor \u00e9 a roupagem. Talvez o novo melhor exemplo disso nos \u00faltimos anos tenha sido entregue em&nbsp;<strong><em>Roda Gigante<\/em><\/strong>. A dram\u00e1tica solidez com a qual o diretor antes manipulava cores, di\u00e1logos e cenas imersivas d\u00e1 lugar a uma teatral hist\u00f3ria sobre alguns dos temas j\u00e1 debatidos em filmes passados. A forma final como aparenta ter sido concebido mostra que n\u00e3o foi vomitado ou escalado para um exerc\u00edcio de Allen, trata-se de um aditivo t\u00e9cnico mais moderno. Um estudo sobre ambienta\u00e7\u00e3o, luz e vida. A fotografia, componente important\u00edssimo para o trato final das cenas internas mais perme\u00e1veis, d\u00e1 \u00e0 linha de di\u00e1logo ordin\u00e1ria uma flexibilidade \u00fanica. Em um momento, h\u00e1 uma fala, em outro, uma omissa distin\u00e7\u00e3o entre uma face e uma cor que completam perfeitamente o que deveria ou n\u00e3o ser dito. O longa acontece e salta para fora da tela ao seu t\u00e9rmino gra\u00e7as a isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos apresentados a uma Nova Iorque que pigarra com a fuma\u00e7a distante enquanto a l\u00edmpida Coney Island majestosamente cai em um silencioso esquecimento. O princ\u00edpio de anos que destruiriam a cultura de revisita\u00e7\u00e3o criam a primeira expectativa que Allen quer causar em seu cen\u00e1rio. Algo que raramente acontece nos filmes do diretor com tamanha excita\u00e7\u00e3o, mas que aqui n\u00e3o s\u00f3 assume a guia da hist\u00f3ria, como tamb\u00e9m a conta por entre cada veneziana&nbsp; ou vitrine limpa de um caf\u00e9. \u00c9 com a vitalidade dada ao ambiente que o som se desenvolve como componente principal aliado aos personagens impuros e totalmente presos \u00e0 alegorias socializadas em cena com passado e futuro muito bem alinhados. Para a feliz Coney Island, sonhos e desilus\u00f5es orbitam com tanta for\u00e7a e impiedade quanto a imponente e ic\u00f4nica roda gigante.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"391\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW2.jpg?resize=790%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6267\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW2.jpg?resize=1024%2C507&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW2.jpg?resize=300%2C149&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW2.jpg?resize=768%2C380&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW2.jpg?resize=1010%2C500&amp;ssl=1 1010w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW2.jpg?w=1676&amp;ssl=1 1676w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW2.jpg?w=1580&amp;ssl=1 1580w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Acompanhamos um n\u00facleo de personagens inicialmente conflituoso e mais tarde controverso e revirado ao avesso. Desejo, sonho, paix\u00e3o e esperan\u00e7a se confundem dentro do impar\u00e1vel e indiferente mundano. H\u00e1 responsabilidades que sepultam vontades, medos que dilaceram discursos. Aqui h\u00e1 uma experimenta\u00e7\u00e3o por Allen do que s\u00e3o realmente feitas as paix\u00f5es, mas o que se acerta \u00e9 no significado do zelo. A vida acontece, mas a manuten\u00e7\u00e3o n\u00e3o. H\u00e1 uma funcionalidade dada a todas as coisas e seres na tentativa de Allen de representar visualmente uma trag\u00e9dia previs\u00edvel, embora conquistadora. N\u00e3o existem reviravoltas impressionantes, um cl\u00edmax inesperado ou alimentado durante a obra ou uma grande mensagem final. H\u00e1 aqui o \u00f3bvio escrachado dentro do acaso e do viver. E ambas as coisas atacam os que sonham. Ataca a todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma imprevisibilidade discut\u00edvel no roteiro do filme. Ainda que a trama se esforce para manter um padr\u00e3o de qualidade elevado em rela\u00e7\u00e3o a filmografia do diretor, existe menos dele e mais de algo modernizado e retr\u00f4. H\u00e1 uma experimenta\u00e7\u00e3o declarada com a musicalidade certeira com a ambienta\u00e7\u00e3o extravagante e conceituada. Embora a parte sonora seja um trato conhecido do executor de&nbsp;<strong><em>Roda Gigante<\/em><\/strong><strong>, <\/strong>a parte que lhe cabe com notoriedade n\u00e3o real\u00e7a nada al\u00e9m das transi\u00e7\u00f5es. Com a responsabilidade de capitular essas etapas de roteiro abertas, a m\u00fasica \u00e9 a primeira ferramenta usada na constru\u00e7\u00e3o teatral com que se forma o longa. A maioria das conversa\u00e7\u00f5es se relaciona com algo externo e sempre invasivo. Uma m\u00fasica de fundo, uma gritaria, telefonemas, gritos, traumas, incompreens\u00f5es. As raz\u00f5es salteiam na tela e atingem o espectador como um rombo em sua pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 viver uma vida fora de uma padr\u00e3o.&nbsp; E demonstra-se aqui o pior a partir de um questionamento: o qu\u00e3o forte somos para falhar?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"444\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW3.jpg?resize=790%2C444&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6269\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW3.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW3.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW3.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW3.jpg?resize=889%2C500&amp;ssl=1 889w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/WW3.jpg?w=1600&amp;ssl=1 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Somado a o que o roteiro apresenta como um lateral al\u00edvio para as cenas principais, existem nos pormenores de <strong>Richie (Jack Gore)<\/strong> uma formata\u00e7\u00e3o \u00fanica para o qu\u00e3o cruel o diretor pode ser em sua maneira de contar a verdade a partir do banal. H\u00e1 na crian\u00e7a uma ruptura do que sobra do resto da trama. Se todos s\u00e3o presos a empregos e del\u00edrios frustrados (como s\u00e3o representados os sonhos), h\u00e1 no incendi\u00e1rio garoto um grito para o imprevis\u00edvel e o eventual. Allen coloca aqui uma pe\u00e7a c\u00ednica e improvisada dentro do que se v\u00ea para a trama como forma de acentu\u00e1-la na pr\u00f3pria desorganiza\u00e7\u00e3o. Indo tudo para o abismo como parece ir com a fam\u00edlia, o desabrigo de todos \u00e9 bem previs\u00edvel no fim disso. O que sobre al\u00e9m de algo para queimar em algum lugar no meio da gritaria? O caos, desimport\u00e2ncia e cruel fome do mundo pelas pessoas j\u00e1 existia bem antes do f\u00f3sforo riscar a caixa sem aviso pr\u00e9vio.<\/p>\n\n\n\n<p>A converg\u00eancia de hist\u00f3rias \u00e9 um destaque para a parte estrutural da trama. O n\u00facleo principal de personagens se desenvolve a partir de um \u00fanico e desafiador conflito que \u00e9 derramado para todas as demais linhas de rela\u00e7\u00f5es. Uma hist\u00f3ria simples, mas contada sob uma \u00f3tica t\u00e9cnica interessante e que cobra da qualidade final com o quanto impressiona.&nbsp;<strong><em>Roda Gigante<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>n\u00e3o \u00e9 o melhor de Allen, mas \u00e9 o seu \u00fanico para os \u00faltimos anos. H\u00e1 uma falta de pot\u00eancia em cada cena, presun\u00e7\u00e3o ou grande amor vivido. Tudo \u00e9 bastante mec\u00e2nico, embora bem ambientado e trilhado de uma profunda hist\u00f3ria j\u00e1 preparada para cada figura dentro do longa. Aberto e complexo como aparenta, n\u00e3o soa t\u00e3o funcional na pr\u00e1tica. A trama conserva ainda uma emergencial rapidez da periodicidade do diretor. E muito embora n\u00e3o seja descuidada, \u00e9 s\u00f3 morna e pouco consistente. O lado art\u00edstico impressionante, contudo, suaviza todo o desvario do diretor nestes quesitos, mas n\u00e3o os resgata da completa perdi\u00e7\u00e3o em sua qualidade final.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A filmografia de Woody Allen entrega sempre um corriqueiro romance galgado nas impraticidades de uma rotina desvairada ou de um comodismo desses mais casuais. 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