{"id":6183,"date":"2018-01-12T18:18:27","date_gmt":"2018-01-12T21:18:27","guid":{"rendered":"http:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/?p=6183"},"modified":"2019-04-15T19:43:28","modified_gmt":"2019-04-15T22:43:28","slug":"critica-the-killing-of-sacred-deer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/critica-the-killing-of-sacred-deer\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica | O Sacrif\u00edcio do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer) [2017]"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"has-text-align-left wp-block-heading\">Nota do Filme:<br><img data-recalc-dims=\"1\" width=\"790\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12256\" style=\"width: 300px;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?fit=790%2C60&#038;ssl=1\" alt=\"\" height=\"60\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?w=4125&amp;ssl=1 4125w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?resize=300%2C60&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?resize=768%2C154&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?resize=1024%2C205&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?w=1580&amp;ssl=1 1580w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?w=2370&amp;ssl=1 2370w\" sizes=\"(max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><br><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Ainda que engatinhe no conhecido cen\u00e1rio moderno e de dif\u00edceis impress\u00f5es capt\u00e1veis, o cinema que traz o irrigado teor de suspense explode em vis\u00f5es \u00fanicas como a do grego <strong>Yorgos Lanthimos<\/strong>. Qualquer est\u00e9tica instintiva, enquadramento c\u00f4modo ou di\u00e1logo bem parafusado \u00e9 deixado de lado. No vazio que sobra, marcas do que foram pinceladas rebeldes para o fazer dram\u00e1tico da combina\u00e7\u00e3o. Uma den\u00fancia da exist\u00eancia de bastidores para uma obra t\u00e3o imortal e que desafia a consist\u00eancia humana. No fim, <strong><em>The Killing of a Sacred Deer<\/em><\/strong> \u00e9 t\u00e3o indiferente quanto se apresenta. O ser humano aqui \u00e9 a pr\u00f3pria cr\u00edtica, instrumento e, por ironia, espectador.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte do que a obra planeja traduzir ao seu final se revela na entrega e como ela se d\u00e1. Somos introduzidos ao contexto fechado e particular de uma sala de cirurgia em completo funcionamento. O bisturi n\u00e3o toca as m\u00e3os, o sangue n\u00e3o suja tanto. O cora\u00e7\u00e3o se comporta. Vivo, vulner\u00e1vel, \u00e0 merc\u00ea. No topo, mas ainda abaixo da luz vigilante de toda a cena, o cirurgi\u00e3o. Contudo, o of\u00edcio m\u00e9dico \u00e9 meramente lateral nesta contempla\u00e7\u00e3o que dura segundos. Munido apenas com a necess\u00e1ria frieza e o perseguido equil\u00edbrio, torna-se apto para assumir seu of\u00edcio prim\u00e1rio: o de juiz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Steven Murphy (Colin Farrell)<\/strong> \u00e9 apresentado como o protagonista respons\u00e1vel pelo fardo catalisador de todo o eixo dram\u00e1tico. Suas decis\u00f5es e indecis\u00f5es s\u00e3o sempre colocadas na balan\u00e7a. Pesam para mais ou para menos, mas nunca deixam de pend\u00ea-la para os outros personagens. A grande redoma familiar inflada pela tradicional fam\u00edlia de excepcionais m\u00e9dicos traz \u00e0 tona uma falsa consist\u00eancia de aceita\u00e7\u00e3o. O real e a desinibi\u00e7\u00e3o dele s\u00e3o aqui experimentados como a forma mais f\u00e1cil de lidar com o mundo e as pessoas. Longe de ser uma distopia declarada,&nbsp;<em>The Killing of a Sacred Deer<\/em> rasteja abaixo do horror e da expectativa. H\u00e1 algo terrivelmente torpe em cada cena. Uma situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica que escala pelo \u00edntimo das paredes e que eventualmente explodir\u00e1 no teto e afogar\u00e1 a todos. A amarra de toda a hist\u00f3ria e como ela se sustenta est\u00e1 na confiss\u00e3o disso logo no primeiro ato. A quest\u00e3o \u00e9: quando tudo fugir\u00e1 do controle absoluto e amea\u00e7ar\u00e1 vidas inocentes com a mesma indiferen\u00e7a da filosofia que as torna humanas?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"527\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD2.jpg?resize=790%2C527&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6173\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD2.jpg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD2.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD2.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD2.jpg?resize=750%2C500&amp;ssl=1 750w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD2.jpg?w=1600&amp;ssl=1 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na rotina seca e na forma asseada como se desenvolve, o n\u00facleo familiar \u00e9 conflituoso. Na s\u00f3lida e aparente perfei\u00e7\u00e3o, o casal assume o topo de uma composi\u00e7\u00e3o familiar pouco convencional. Talvez seja com esse estranhamento dado ao p\u00fablico que o filme usa seu pr\u00f3prio terreno para criar as met\u00e1foras mais incisivas sobre amor, compromisso, escolhas e instintos. N\u00e3o demora para que o v\u00e9u das apar\u00eancias soe mais como uma fantasia dada a bestas t\u00e3o animais quanto fabulares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 s\u00f3 durante raras converg\u00eancias de protagonistas e ef\u00eameros coadjuvantes que a obra dramatiza no presente o que os di\u00e1logos evidenciam de um passado normativo, frio, e na pr\u00e1tica, f\u00e1cil de lidar. Os personagens orquestrados pela trama de Lanthimos n\u00e3o esbo\u00e7am qualquer desenvolvimento de quem s\u00e3o. Ao inv\u00e9s de progredirem, se repartem entre o real e o fantasioso que vagarosamente engole cen\u00e1rio e personas. \u00c9 por meio da trilha fan\u00e1tica que surge o primeiro vislumbre deste outro lado da trama. A tr\u00e1gica alegoria grega talvez encontre aqui o seu posto de vantagem. Firma-se um suspense aterrador aliado com a trilha linear e sensitiva, remetendo ao cinema de poucos di\u00e1logos do fazer dram\u00e1tico. Muito embora, como j\u00e1 mencionado, a abordagem do diretor escape de qualquer g\u00eanero principal, aqui existe para a guia dram\u00e1tica um consenso sobre o que lidera cada ato do grande <em>thriller<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O som \u00e9 um dos grandes respons\u00e1veis por guiar o enredo adiante. Embora seja f\u00e1cil se perder no cl\u00e1ssico coro grego de mudan\u00e7as abruptas e quase sempre foras de hora, a concep\u00e7\u00e3o criada na maior parte das cenas cria a expectativa do que se revela apenas na pr\u00f3xima. O recurso acaba se tornando uma ferramenta de titula\u00e7\u00e3o visual incr\u00edvel que orienta enquanto trai o espectador dentro do labirinto doentio do mist\u00e9rio criado para o grande conflito. Mais tarde, com o espectador imbu\u00eddo da trilha j\u00e1 familiar com o direcionamento da trama, o cl\u00edmax revela-se como o desague de toda a desordem sonora vinda de tantas dire\u00e7\u00f5es. Os lugares, di\u00e1logos e a\u00e7\u00f5es aparentam quase mimetizar o que se segue ao fundo. Seja uma cena melanc\u00f3lica, euf\u00f3rica ou serena com uma paleta mais leve, o coro estar\u00e1 sempre l\u00e1, preparado e atento.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"527\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD3.jpeg?resize=790%2C527&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-6174\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD3.jpeg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD3.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD3.jpeg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD3.jpeg?resize=750%2C500&amp;ssl=1 750w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD3.jpeg?w=2000&amp;ssl=1 2000w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/TKOASD3.jpeg?w=1580&amp;ssl=1 1580w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 injetando artificialmente vida ao contexto que se observa que na verdade tudo, mais do que uma obra de passos e uma conclus\u00e3o, se trata de um conto moderno para a posteridade.&nbsp; Da fraqueza do homem de poucos sacrif\u00edcios ao ter que provar seu dever acima de sua moral \u00e0 fragilidade da mulher na rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o hedionda da rotina de liderar a fam\u00edlia sob a sombra do marido.&nbsp;<strong>Anna Murphy (Nicole Kidman)<\/strong> toma na trama uma responsabilidade de papel tamanha para externar isso ao p\u00fablico que chega a beirar o grande enfoque protagonista a partir da segunda metade da obra. Carregando uma vis\u00e3o e princ\u00edpios totalmente diferentes dos do marido, Steven, \u00e9 capaz de demonstrar o lado de algu\u00e9m que entra no imagin\u00e1rio aleg\u00f3rico criado por Lanthimos quase que por subjuga\u00e7\u00e3o pelo pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>O destaque para&nbsp;<strong>Martin (Barry Keoghan)&nbsp;<\/strong>no filme \u00e9 unanimemente justo pelo peso que o personagem representa dentro do motor do longa. Um passado foi semeado em sua figura e s\u00f3 come\u00e7a a germinar no princ\u00edpio da trama, embora o p\u00fablico pouco conhe\u00e7a mais sobre. Nos di\u00e1logos pouco convencionais e nas apari\u00e7\u00f5es que reviram est\u00f4magos, o mist\u00e9rio na figura do garoto e nas suas reais inten\u00e7\u00f5es ao se aproximar de Steven n\u00e3o perdem a grandeza da d\u00favida. Quanto mais respostas s\u00e3o ou aparentam ser dadas, mais dif\u00edcil de ser lido o personagem se torna. Como respons\u00e1vel por guiar o eixo fantasioso da trama, Martin personifica o conjunto de inexplic\u00e1veis leis daquele mundo e passa a aplic\u00e1-las em devolu\u00e7\u00e3o a todas as decis\u00f5es da fam\u00edlia. Um avatar do inevit\u00e1vel no corpo de um garoto imprevis\u00edvel e deslocado. Se o semblante n\u00e3o \u00e9 o suficiente para inibir qualquer confian\u00e7a do espectador, seus mais tardios di\u00e1logos com os demais protagonistas ser\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>The Killing of a Sacred Deer&nbsp;<\/em>expele uma nova abordagem para o suspense. Galgado em drama e em metodismos art\u00edsticos da vis\u00e3o do pr\u00f3prio diretor, a obra se torna um expoente entre os vagarosos lan\u00e7amentos dessa categoria de competitividade. Cavando fundo na psique e distribuindo sua abordagem em cada quadro bem elaborado, o longa traduz bem os estilos do cinema dram\u00e1tico enquanto visualiza uma poss\u00edvel nova formata\u00e7\u00e3o para dentro do g\u00eanero. Longe de ser um&nbsp;<em>thriller<\/em> focado em embara\u00e7os e presun\u00e7\u00f5es constantes provocadas no p\u00fablico, h\u00e1 no grande ritual do cervo a capacidade de aquietar e encantar com a sua caminhada que n\u00e3o apressa ou diminui o passo.&nbsp; Se n\u00e3o fosse um fragmento de um legado para o suspense moderno,&nbsp;<em>The Killing of a Sacred Deer<\/em> seria no m\u00ednimo o arauto de uma nova era para ele. A mensagem de Lanthimos nunca foi t\u00e3o bem transcrita aliada a sua t\u00e9cnica quanto desta vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda que engatinhe no conhecido cen\u00e1rio moderno e de dif\u00edceis impress\u00f5es capt\u00e1veis, o cinema que traz o irrigado teor de suspense explode em vis\u00f5es \u00fanicas&hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":41,"featured_media":6172,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[630],"class_list":["post-6183","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-critica","tag-630"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized 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