{"id":3352,"date":"2017-06-19T22:51:35","date_gmt":"2017-06-20T01:51:35","guid":{"rendered":"http:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/?p=3352"},"modified":"2017-09-25T16:12:08","modified_gmt":"2017-09-25T19:12:08","slug":"as-verdades-inquietantes-que-horas-ela-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/as-verdades-inquietantes-que-horas-ela-volta\/","title":{"rendered":"As verdades inquietantes de \u201cQue horas ela volta?\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3353 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Que-Horas-ela-Volta-1.jpg?resize=786%2C443&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"786\" height=\"443\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Que-Horas-ela-Volta-1.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Que-Horas-ela-Volta-1.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Que-Horas-ela-Volta-1.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Que-Horas-ela-Volta-1.jpg?resize=889%2C500&amp;ssl=1 889w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Que-Horas-ela-Volta-1.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 786px) 100vw, 786px\" \/><\/p>\n<p>\u201cQue horas ela volta?\u201d foi uma produ\u00e7\u00e3o brasileira que se destacou no ano de 2015, de dire\u00e7\u00e3o de Anna Muylaert. O filme tem como protagonista Val, vivida pela atriz Regina Cas\u00e9. A atriz interpreta uma mulher simples, cuja profiss\u00e3o \u00e9 de empregada dom\u00e9stica. Para tanto, precisa residir na mesma casa de seus patr\u00f5es, e desempenhar as mais diversas fun\u00e7\u00f5es em turno integral.<\/p>\n<p>Em seu emprego, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente est\u00e1tica e hierarquizada: patr\u00e3o n\u00e3o sei mistura com empregada. Apesar de \u201cser da fam\u00edlia\u201d, Val vive em um pequeno e simples quarto, enquanto a fam\u00edlia vive num conforto pleno. As comidas tamb\u00e9m s\u00e3o divididas entre as \u201cdo patr\u00e3o\u201d e \u201cdos empregados\u201d. Assim, a suposta atmosfera acolhedora n\u00e3o passa de discurso. E esse comportamento paradoxal \u00e9 vislumbrado, por exemplo, em cenas que a personagem de Val \u00e9 sutilmente ignorada por todos, gerando desconforto ao espectador.<\/p>\n<p>A grande sacada do filme \u00e9 o fato de que a narrativa se passa atrav\u00e9s da perspectiva de Val. Isso porque, na maioria dos outros filmes, os empregados s\u00e3o meros coadjuvantes e comp\u00f5e o cen\u00e1rio secund\u00e1rio. Neste filme, se v\u00ea o contr\u00e1rio e o espectador se v\u00ea adentrando a rotina da personagem. A vida de Val \u00e9 uma constante espera: ela espera que a fam\u00edlia levante, ela espera a fam\u00edlia comer, estando sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Esses espa\u00e7os de espera s\u00e3o magistralmente demonstrados por cenas de sil\u00eancio e de falta de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria tem uma reviravolta com a chegada da filha de Val, J\u00e9ssica. A garota vem do Nordeste a fim de prestar vestibular para o curso de Arquitetura na FAU. Logo de cara, a fam\u00edlia a qual Val trabalha j\u00e1 sublinha o quanto ser\u00e1 dif\u00edcil para J\u00e9ssica ser aprovada.<\/p>\n<p>Contudo, ao contr\u00e1rio de Val, que \u00e0s custas de seu emprego, encaixa-se \u00e0 hierarquia estabelecida, a filha J\u00e9ssica n\u00e3o quer ser subordinada, nem ser tratada com \u201ccidad\u00e3 de segunda classe\u201d, como a pr\u00f3pria personagem refere. J\u00e9ssica comporta-se como visita e ganha espa\u00e7o de visita, ficando no quarto de h\u00f3spedes, jantando com a fam\u00edlia e passeando com o patr\u00e3o.<\/p>\n<p>O comportamento de J\u00e9ssica incomoda a personagem B\u00e1rbara, dona da casa, que deseja v\u00ea-la \u201cde volta ao seu lugar\u201d, isto \u00e9, no espa\u00e7o destinado aos empregados. E \u00e9 a\u00ed onde o conflito se instaura. Conforme a atmosfera vai pesando, as doses de discrimina\u00e7\u00e3o por parte da patroa, tamb\u00e9m se intensificam. Nesse momento, Val compreende que nunca fora da fam\u00edlia e que jamais pertencera \u00e0quele ambiente.<\/p>\n<p>\u201cQue horas ela volta?\u201d \u00e9 dura, mas sutil e com altas doses de realidade. \u00c9 uma hist\u00f3ria absurdamente comum, reflexo da sociedade altamente desigual do Brasil. Atrav\u00e9s dela, tra\u00e7a-se uma cr\u00edtica social severa que visa combater uma vis\u00e3o que est\u00e1 arraigada no subconsciente de algumas pessoas. Em certo ponto da pel\u00edcula, J\u00e9ssica questiona sua m\u00e3e acerca de quem ditou as regras as quais Val se submete; Val responde que essas coisas \u201c<em>s\u00e3o assim mesmo<\/em>\u201d e que \u201c<em>ningu\u00e9m precisa explicar<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQue horas ela volta?\u201d \u00e9 um filme que fala sobre o lugar das pessoas na vida. E como a discrimina\u00e7\u00e3o est\u00e1 no nosso cotidiano, nas a\u00e7\u00f5es mais banais, mas que revelam o tratamento a que se destina a determinadas profiss\u00f5es. Para J\u00e9ssica, ser empregada dom\u00e9stica n\u00e3o significa ser diferente; n\u00e3o significa n\u00e3o poder comer da mesma comida e partilhar uma vida comum com os demais moradores da casa.<\/p>\n<p>Ainda que Val n\u00e3o partilhe do mesmo ponto de vista da filha, tais ideias come\u00e7am a causar reflex\u00e3o. No final do filme, J\u00e9ssica \u00e9 aprovada no vestibular e o filho do patr\u00e3o acaba sendo reprovado. A amargura da cena \u00e9 desconfortante, porquanto todos se revelam incr\u00e9dulos diante da situa\u00e7\u00e3o. E, aparentemente, a partir de tamanho desconforto, Val sente que \u00e9 hora de viver sua pr\u00f3pria vida, ao contr\u00e1rio de viver \u00e0 espera da vida alheia. S\u00edmbolo disso \u00e9 a cena em que Val enfim entra na piscina \u2013 algo inconceb\u00edvel \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o social da casa \u2013 e sente-se livre. No pr\u00f3ximo passo, Val pede sua demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda, a hist\u00f3ria \u00e9 sobre maternidade. No filme, h\u00e1 tr\u00eas maternidades n\u00e3o vivenciadas, cada qual por uma raz\u00e3o. Val abandona sua filha no Nordeste para trabalhar como dom\u00e9stica em S\u00e3o Paulo. \u00c9 deste emprego que manda dinheiro para o sustento da filha. Em seu emprego, contudo, acaba sendo como uma m\u00e3e para o filho de sua patroa, que \u00e9 outra m\u00e3e ausente. E, por fim, J\u00e9ssica, revela ao final que tamb\u00e9m deixou seu filho pequeno no Nordeste para prestar o vestibular em S\u00e3o Paulo e, talvez, ter um futuro melhor. O t\u00edtulo \u00e9 justamente uma refer\u00eancia \u00e0s aus\u00eancias constantes das m\u00e3es e sobre esse questionamento feito pelos seus filhos.<\/p>\n<p>Cada m\u00e3e, ao final, se redime, de certa forma. Val, larga seu emprego e sugere se dedicar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de seu neto. J\u00e9ssica vai buscar seu filho no Nordeste. E B\u00e1rbara, ainda que tardiamente, tenta reconquistar o afeto do filho, t\u00e3o apegado aos carinhos da empregada Val.<\/p>\n<p>Vencedor em diversas premia\u00e7\u00f5es estrangeiras como o Festival de Sundance, Festival de Berlim e World Cinema Amsterdam Festival, entre outros, o filme \u00e9 um retrato da fam\u00edlia brasileira, expondo realidades t\u00e3o antag\u00f4nicas. Creio que a mensagem final seja a de que nunca \u00e9 tarde para romper padr\u00f5es opressores.\u00a0 \u00c9 um filme revelador e por vezes desconfort\u00e1vel, por\u00e9m extremamente necess\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQue horas ela volta?\u201d foi uma produ\u00e7\u00e3o brasileira que se destacou no ano de 2015, de dire\u00e7\u00e3o de Anna Muylaert. 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