{"id":32994,"date":"2025-12-04T18:00:29","date_gmt":"2025-12-04T21:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/?p=32994"},"modified":"2025-12-05T08:57:25","modified_gmt":"2025-12-05T11:57:25","slug":"critica-incendios-2010","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/critica-incendios-2010\/","title":{"rendered":"A guerra \u00edntima de\u00a0Inc\u00eandios\u00a0[2010]"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO sil\u00eancio \u00e9 para todos diante da verdade\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; <\/em>A mulher que canta<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dias,<em> Inc\u00eandios<\/em>, de <strong>Denis Villeneuve<\/strong>, voltou \u00e0s telas brasileiras, quinze anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento. A obra franco-canadense adapta a pe\u00e7a hom\u00f4nima de <strong>Wajdi Mouawad<\/strong>, dramaturgo liban\u00eas que, em 2003, escreveu a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os g\u00eameos que recebem, da m\u00e3e, duas cartas: uma destinada ao pai que julgavam morto; outra ao irm\u00e3o cuja exist\u00eancia desconheciam. Fica, inclusive, a recomenda\u00e7\u00e3o de leitura da pe\u00e7a completa, facilmente encontr\u00e1vel na internet.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Em <em>Inc\u00eandios<\/em>, <strong>Villeneuve<\/strong> constr\u00f3i a narrativa em um Oriente M\u00e9dio inventado, nunca explicitado geograficamente. As cidades, que d\u00e3o t\u00edtulo aos \u2018cap\u00edtulos\u2019, tamb\u00e9m n\u00e3o existem. Pode-se dizer, ent\u00e3o, que o filme opera como um esp\u00e9cie de fic\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">A via-cr\u00facis da m\u00e3e, <strong>Nawal Marwan <\/strong>(Lubna Azabal), poderia ser a de tantas outras, e o pa\u00eds, fundamentalista e tomado pela guerra civil, poderia n\u00e3o ser um pa\u00eds, mas qualquer pa\u00eds que mata a si mesmo pela cren\u00e7a. O fato de o autor original ser liban\u00eas naturalmente remete \u00e0 guerra civil do L\u00edbano, mas ter essa certeza n\u00e3o interfere na concep\u00e7\u00e3o da obra, nem tampouco em sua for\u00e7a.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"444\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-2.jpg?resize=790%2C444&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-32996\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-2.jpg?w=1200&amp;ssl=1 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-2.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Na cena inicial, a leitura do testamento de <strong>Nawal<\/strong> anuncia a trag\u00e9dia que a acompanhou por toda a vida. O pedido de absten\u00e7\u00e3o do vel\u00f3rio e do sepultamento sem l\u00e1pide, nua e de costas para o mundo, atesta que ela n\u00e3o se julgava digna da conven\u00e7\u00e3o at\u00e9 que a verdade fosse revelada e, enfim, encontrasse alguma forma de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi isso que os filhos, <strong>Jeanne <\/strong>(M\u00e9lissa D\u00e9sormeaux-Poulin) e <strong>Simon Marwan <\/strong>(Maxim Gaudette), receberam de heran\u00e7a: verdades silenciadas e, com elas, a miss\u00e3o de descobrir quem foi sua m\u00e3e, que, no ter\u00e7o final da vida, esfor\u00e7ou-se claramente para abstrair todo trauma e proporcionar-lhes uma inf\u00e2ncia normal, ou algo que se aproximasse disso, no Canad\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, <strong>Villeneuve<\/strong> narra a hist\u00f3ria intercalando as linhas temporais, sem pr\u00e9vio aviso, nem pelo roteiro, nem por artif\u00edcios visuais, de modo que passado e presente se confundem. De um lado, a vida pregressa da m\u00e3e, em meio \u00e0 guerra civil e ao colapso moral de um pa\u00eds que se devora; de outro, a filha, refazendo os passos maternos e penetrando, pouco a pouco, na tessitura do horror, experimentando com atraso o sofrimento daquela que viria a ser uma p\u00e1ria, subjugada justamente por quem deveria t\u00ea-la protegido.<\/p>\n\n\n\n<p>A perda da inoc\u00eancia da m\u00e3e, por assim dizer, nunca carrega inten\u00e7\u00e3o; pelo contr\u00e1rio, foi esmagada e escanteada pela fam\u00edlia, pelo Estado e pela religi\u00e3o. O que sobra, ali\u00e1s?<\/p>\n\n\n\n<p>O encontro entre o teatro de <strong>Wajdi Mouawad<\/strong> e o cinema de <strong>Villeneuve<\/strong>, aqui, retrata a intimidade da guerra, que, por t\u00e3o trivializada nos \u00faltimos anos, muitas vezes obscurece o fato de que existem pessoas reais, dilaceradas f\u00edsica e espiritualmente ao longo de toda a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, rever <em>Inc\u00eandios<\/em> \u00e9 olhar para Gaza e para o conflito que a ronda h\u00e1 s\u00e9culos. A mesma l\u00f3gica de \u00f3dio c\u00edclico, da vingan\u00e7a que se herda e da f\u00e9 que se deforma, repete-se sob novas bandeiras e novos nomes, mas com as mesmas feridas. O filme, ao universalizar a dor e ocultar o territ\u00f3rio, parece antecipar, ou apenas relembrar, que a guerra, em qualquer tempo ou lugar, \u00e9 sempre \u00edntima. Por tr\u00e1s de cada ru\u00edna h\u00e1 um rosto; por tr\u00e1s de cada n\u00famero, uma hist\u00f3ria que jamais encontrar\u00e1 paz.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de <strong>Nawal Marwan<\/strong>, civil humilhada, torturada, estuprada, degradada e ferida, personifica a guerra, personifica Gaza, personifica todo um povo suprimido e massacrado em nome da (n\u00e3o apenas) religi\u00e3o, revelando, ainda que de forma indireta, a l\u00f3gica que alimenta o extremismo revanchista. Em <em>Inc\u00eandios<\/em>, como em Gaza, a guerra deixa de ser um fato pol\u00edtico e se revela pelo que sempre foi, uma trag\u00e9dia humana que se repete, muda de nome, mas nunca de rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro filho de <strong>Nawal<\/strong>, fruto de um amor genu\u00edno, t\u00e3o destoante da realidade em que foi concebido, nasce j\u00e1 condenado ao fim. A brutalidade e a falta de humanidade s\u00e3o r\u00e1pidas e implac\u00e1veis. Em nenhum momento, por mais sangrenta que seja a cena, <strong>Villeneuve<\/strong> prepara o espectador para o que est\u00e1 por vir. E \u201cpreparar\u201d significa n\u00e3o ensaiar ou criar progressivamente um cen\u00e1rio de tens\u00e3o at\u00e9 o \u00e1pice; simplesmente \u00e9 o que \u00e9, o real pelo real. O filme, por si s\u00f3, pelo efeito que provoca a todo instante, serve de prepara\u00e7\u00e3o (ou de total aus\u00eancia dela) para a barb\u00e1rie vivenciada. Acostume-se.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"447\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-1-1.webp?resize=790%2C447&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-32997\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-1-1.webp?w=900&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-1-1.webp?resize=768%2C434&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Essa frieza narrativa torna extremamente dif\u00edcil acompanhar a hist\u00f3ria <strong>Nawal Marwan<\/strong>, a m\u00e3e, sem se comover. A injusti\u00e7a e a impot\u00eancia a reduzem a nada, e o caminho que lhe resta parece ser o \u00fanico, mesmo que no limite do aceit\u00e1vel, j\u00e1 que, como ela pr\u00f3pria lembra, tentar deter a guerra com palavras n\u00e3o surte efeito algum. Por\u00e9m, \u00e9 igualmente dif\u00edcil \u201ccomprar\u201d a ideia do que ela se tornou, n\u00e3o no sentido moral, mas na dificuldade de torcer por uma reden\u00e7\u00e3o plena ou um arco cat\u00e1rtico da personagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de tantas outras produ\u00e7\u00f5es, em que da inoc\u00eancia nasce o poder, aquele personagem ing\u00eanuo que se torna temido, em <em>Inc\u00eandios<\/em> n\u00e3o sentimos isso. Voc\u00ea n\u00e3o clama por vingan\u00e7a ou reden\u00e7\u00e3o, voc\u00ea apenas sofre por aquela vida ceifada pela guerra. \u00c9 o retrato evidente de uma alma destro\u00e7ada, e n\u00e3o h\u00e1 necessariamente algo de virtuoso por tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a forma como <strong>Villeneuve<\/strong> conta a hist\u00f3ria confunde n\u00e3o apenas as duas linhas temporais, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia de <strong>Jeanne<\/strong>, a filha, com a nossa, do espectador. \u00c0 medida em que ela descobre quem foi sua m\u00e3e, por meio das rea\u00e7\u00f5es dos demais personagens, somos levados a sentir o que ela sente e a compartilhar a compreens\u00e3o profunda daquela mulher e do porqu\u00ea do mist\u00e9rio das cartas.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de <strong>Simon<\/strong>, o filho, de desd\u00e9m ou de \u201cdeixa quieto\u201d, tamb\u00e9m nos \u00e9 transmitida pelo descobrimento da vida miser\u00e1vel da m\u00e3e, o que nos leva a perceber a dimens\u00e3o de sua for\u00e7a, que, na medida do poss\u00edvel, escondeu por tantos anos, em forma de sacrif\u00edcio, protegendo os filhos e blindando-os do horror.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale destacar tamb\u00e9m o \u00eaxito do filme no que se prop\u00f5e: explorar a guerra, o fundamentalismo religioso e o retrato t\u00e3o real que assola n\u00e3o um, mas v\u00e1rios pa\u00edses h\u00e1 s\u00e9culos. Ao mesmo tempo, exp\u00f5e o individualismo e o humanismo obscuro da guerra, sem deixar de ser tamb\u00e9m uma excelente hist\u00f3ria de suspense, como se um elemento n\u00e3o bastasse ao outro. As descobertas progressivas dos filhos, concomitantes \u00e0 narrativa da m\u00e3e, resultam em um <em>thriller <\/em>excepcional e, se fosse apenas isso, j\u00e1 seria suficiente para impressionar.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o chegamos ao <em>plot twist<\/em>, t\u00e3o comentado e repetido ao longo dos anos. A cena da piscina, j\u00e1 celebrada nas redes como \u201cperturbadora para quem viu\u201d, \u00e9 realmente devastadora.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"426\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-3.png?resize=790%2C426&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-32998\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-3.png?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Incendios-3.png?resize=768%2C414&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o de um filme, por\u00e9m, n\u00e3o depende necessariamente de um <em>plot <\/em>extraordin\u00e1rio ou de um final triunfante; na verdade, muitos dos grandes sequer contam com uma virada arrebatadora. Isso porque, n\u00e3o raras vezes, na \u00e2nsia de surpreender, for\u00e7am-se situa\u00e7\u00f5es inveross\u00edmeis e destoantes da l\u00f3gica interna da narrativa, comprometendo, por consequ\u00eancia, toda a obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, quando bem-executado, a sensa\u00e7\u00e3o de presenciar aquilo \u00e9 \u00f3tima e, mais que isso, potencializa o filme como uma excelente hist\u00f3ria com uma virada igualmente excelente e um final \u00e0 altura. <em>Inc\u00eandios<\/em> alcan\u00e7a exatamente isso, um filme excelente com o \u201calgo mais\u201d de um final surpreendente, que, sem d\u00favida, fez hist\u00f3ria como um dos mais marcantes do cinema recente.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de <strong>Nawal<\/strong> e de seus filhos, o mist\u00e9rio que os persegue \u2014 e nos persegue \u2014, a relev\u00e2ncia do tema, a primazia da trilha sonora e a precis\u00e3o da <em>mise-en-sc\u00e8ne<\/em> j\u00e1 seriam suficientes para sustentar <em>Inc\u00eandios<\/em>, mesmo sem a reviravolta. Al\u00e9m disso, a compet\u00eancia de <strong>Villeneuve<\/strong> se revela tanto na forma seca e direta com que filma a brutalidade quanto na constru\u00e7\u00e3o do suspense em torno das cartas. Embora a narrativa avance, ele se recusa a oferecer grandes pistas sobre o que est\u00e1 por vir, como na introdu\u00e7\u00e3o do carrasco, que passa quase despercebido e s\u00f3 mais tarde se revela central para o desfecho.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 justamente por isso que Inc\u00eandios permanece um filme de impacto avassalador, sustentado pela relev\u00e2ncia de sua hist\u00f3ria e por uma atualidade que impressiona mesmo quinze anos ap\u00f3s a estreia. O filme captura um <strong>Villeneuve<\/strong> ainda \u201cengatinhando\u201d, mas j\u00e1 trilhando, com firmeza, o caminho que o consagraria como um dos grandes cineastas de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO sil\u00eancio \u00e9 para todos diante da verdade\u201d &#8211; A mulher que canta. 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