{"id":32939,"date":"2025-06-10T15:30:50","date_gmt":"2025-06-10T18:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/?p=32939"},"modified":"2025-06-11T12:13:42","modified_gmt":"2025-06-11T15:13:42","slug":"critica-passagens-passages-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/critica-passagens-passages-2023\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica | Passagens (Passages) [2023]"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/cinematologia.com.br\/cine\/author\/iuri-ems93\/\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-left wp-block-heading\">Nota do Filme:<br><img data-recalc-dims=\"1\" width=\"790\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12256\" style=\"width: 300px;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?fit=790%2C60&#038;ssl=1\" alt=\"\" height=\"60\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?w=4125&amp;ssl=1 4125w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?resize=300%2C60&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?resize=768%2C154&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?resize=1024%2C205&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?w=1580&amp;ssl=1 1580w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/nota35.png?w=2370&amp;ssl=1 2370w\" sizes=\"(max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><br><\/h3>\n\n\n\n<p>A complexidade das rela\u00e7\u00f5es humanas nunca vai deixar de ser um mist\u00e9rio, nunca ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar um manual para nos acompanhar no caminhar da vida, e o cinema do diretor americano Ira Sachs busca ilustrar essa bagun\u00e7a que \u00e9 comum a todos. Em <em>Passages, <\/em>seu filme lan\u00e7ado em 2023 no Festival de Cinema de Sundance<em>, <\/em>n\u00e3o \u00e9 diferente e o diretor levanta quest\u00f5es sobre o tema a partir da rela\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas personagens, que acabam se envolvendo em um tri\u00e2ngulo amoroso ap\u00f3s o cineasta Tom\u00e1s (Franz Rogowski) trair seu esposo Martin (Ben Whishaw) com a jovem professora Agathe (Ad\u00e8le Exarchopoulos) ap\u00f3s sentir que seu casamento est\u00e1 estagnado, sem emo\u00e7\u00e3o. Narcisista e completamente impulsivo, Tom\u00e1s arrasta Martin e Agathe para essa realidade que s\u00f3 serve a si mesmo e seus desejos, sendo um deles o desejo de controle de tudo e todos, assim como o papel que assume em seus sets de filmagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"PASSAGES | Official Trailer | Now Streaming\" width=\"790\" height=\"444\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/m5Kr38lovJc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Em um plano sequ\u00eancia do \u00faltimo dia de filmagens, a primeira cena de <em>Passages<\/em> estabele bem quem \u00e9 esse homem ao mostr\u00e1-lo em um ambiente completamente ca\u00f3tico ao mesmo tempo em que ele consegue, com maestria e precis\u00e3o, ter controle sob os m\u00ednimos detalhes, dentre eles at\u00e9 o caminhar e os gestos dos figurantes. Desde o primeiro momento, Ira Sachs deixa claro que seu personagem vive confortavelmente nesses ambientes; aquele \u00e9 o elemento dele e ele sabe exatamente qual postura assumir, ainda que em detrimento de terceiros. No seu set de filmagem, o personagem de Franz tem todos os olhos voltados para ele, \u00e9 necess\u00e1rio, essencial. Nada ali pode ser feito sem o seu parecer, alimento primordial para a sua alma eg\u00f3ica e inquieta. Numa tentativa de emular essa mesma abordagem em sua vida pessoal, Tom\u00e1s cria para si uma vida pautada em um profundo descontrole das suas emo\u00e7\u00f5es, que se desenvolvem a partir de um ego\u00edsmo profundo ao inv\u00e9s de uma vontade genu\u00edna para com o outro. Em suas rela\u00e7\u00f5es, pontos centrais da obra, n\u00e3o h\u00e1 real conex\u00e3o, de modo que a pe\u00e7a central n\u00e3o \u00e9 a pessoa, n\u00e3o \u00e9 Martin e nem Agathe, mas sim seus corpos e o que eles podem vir a oferecer. O corpo de seus amores se tornam meros objetos da cena da sua vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"474\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Brody-Passages-Review.webp?resize=790%2C474&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-32942\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Brody-Passages-Review.webp?w=2560&amp;ssl=1 2560w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Brody-Passages-Review.webp?resize=768%2C461&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Brody-Passages-Review.webp?resize=1536%2C922&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Brody-Passages-Review.webp?resize=2048%2C1229&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Brody-Passages-Review.webp?w=2370&amp;ssl=1 2370w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o a toa nas cenas de sexo raramente via-se os rostos do casal durante o ato&nbsp; \u2013 afinal, n\u00e3o importava quem \u00e9 a pessoa, mas sim o que era sentido carnalmente, o desejo puro e hed\u00f4nico; um ant\u00eddoto, ainda que tempor\u00e1rio e err\u00f4neo, para a sua car\u00eancia perp\u00e9tua e sua busca incans\u00e1vel em prol de algu\u00e9m que n\u00e3o tivesse nenhum desejo para al\u00e9m dele. \u00c9 nesses atos carnais que ele atinge o \u00e1pice do prazer dentro da sua odisseia. Nesse sentido, o trabalho de Sachs \u00e9 atento ao trabalhar a mise en scene dessa odisseia em cima de uma cinematografia que destaca seus detalhes, como a presen\u00e7a das cores azul e vermelha pelo cen\u00e1rio e figurino, complementares e independentes, respectivamente, fria e quente, assim como o desenrolar do romance entre os tr\u00eas. Martin e Agathe s\u00e3o o vermelho, o quente da paix\u00e3o e do desejo. S\u00e3o os amores passageiros, intensos, s\u00e3o as presen\u00e7as fugazes, que preenchem a alma do cineasta e o ego do protagonista. J\u00e1 Tom\u00e1s \u00e9 a frieza e a tristeza do azul, que est\u00e1 sempre entre os outros dois personagens e a espreita para dar fim a monotonia que integra a rotina di\u00e1ria para dar lugar a miser\u00e1vel peregrina\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a essa ideia de que o seu equil\u00edbrio se encontra no olhar do outro. Nesse mundo em tons de vermelho e azul, Tom\u00e1s cada vez mais se perde em suas rela\u00e7\u00f5es e cada vez menos se reconhece, sem espa\u00e7o para mais ningu\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"444\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Passages_TIFF_1800x1080_PICB0080-1-1600x900-c-default.jpg?resize=790%2C444&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-32943\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Passages_TIFF_1800x1080_PICB0080-1-1600x900-c-default.jpg?w=1600&amp;ssl=1 1600w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Passages_TIFF_1800x1080_PICB0080-1-1600x900-c-default.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Passages_TIFF_1800x1080_PICB0080-1-1600x900-c-default.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das cenas mais bonitas e tristes do filme, inclusive, \u00e9 a que Tom\u00e1s conversa com Martin e a c\u00e2mera o enquadra de costas, em um singelo plano americano, fazendo com que n\u00e3o seja poss\u00edvel enxergar Martin no quadro, apenas partes do seu corpo, como a perna, durante uma conversa. Aqui, fica expl\u00edcito que quem se relacionar com Tom\u00e1s ter\u00e1 que se anular para caber em sua perspectiva e servir aos seus desejos para que ele tenha a falsa sensa\u00e7\u00e3o de controle e de saciedade; sua meta \u00e9 viver sendo prioridade de si mesmo e de todos os que o rodeiam. O cineasta narcisista n\u00e3o permite que a mesma liberdade que ele almeja para si seja vivida pelos outros personagens, pois \u00e9 vista como uma amea\u00e7a, como a perda do controle e do tes\u00e3o em ser desejado. Assim que sente que est\u00e1 perdendo um ou outro, ele retorna com uma intensidade desesperada e que, por vezes, aliena o outro. A for\u00e7a da dire\u00e7\u00e3o do Sachs est\u00e1 exatamente como conduz essas idas e vindas. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"444\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/wirestory_114f2cced7ff2b813e7e26ddff2a81ae_16x9_1600.jpeg?resize=790%2C444&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-32944\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/wirestory_114f2cced7ff2b813e7e26ddff2a81ae_16x9_1600.jpeg?w=1600&amp;ssl=1 1600w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/wirestory_114f2cced7ff2b813e7e26ddff2a81ae_16x9_1600.jpeg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/wirestory_114f2cced7ff2b813e7e26ddff2a81ae_16x9_1600.jpeg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m dos detalhes pr\u00e9-citados, por exemplo, os enquadramentos e disposi\u00e7\u00e3o dos personagens refletem objetivamente a din\u00e2mica dessas rela\u00e7\u00f5es. H\u00e1 diversas sequ\u00eancias em que s\u00f3 se v\u00ea um personagem enquanto outro fala, dando espa\u00e7o para aquela primeira sensa\u00e7\u00e3o se expandir, o que \u00e9 mais importante do que o dito, sem cortes, sem interrup\u00e7\u00f5es, evidenciando que, apesar de tudo, trata-se de seres humanos. Ou quando a c\u00e2mera firma seu olhar em uma dire\u00e7\u00e3o, sem movimentos, e permite que um ou outro personagem entre no frame, realmente esse deslocamento em suas vidas.&nbsp;O grande problema do longa-metragem, no entanto, \u00e9 que, o que \u00e9 constru\u00eddo \u00e9 apenas uma bela pintura. N\u00e3o h\u00e1 profundidade para al\u00e9m do que \u00e9 encenado. A hist\u00f3ria n\u00e3o se permite mergulhar na complexidade que ela mesma encena e cujos personagens carregam em si. O filme torna-se interessante ao levantar quest\u00f5es relevantes para a reflex\u00e3o sob a \u00f3tica contempor\u00e2nea, mas torna-se rel\u00e9s exatamente quando n\u00e3o consegue respond\u00ea-las \u00e0 altura do que est\u00e1 sendo proposto. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"790\" height=\"527\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ben-whishaw-franz-rogowski-passages-080323-42185390a09a401c8d3850ceb1ebd27d.jpg?resize=790%2C527&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-32945\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ben-whishaw-franz-rogowski-passages-080323-42185390a09a401c8d3850ceb1ebd27d.jpg?w=1500&amp;ssl=1 1500w, https:\/\/i0.wp.com\/cinematologia.com.br\/cine\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ben-whishaw-franz-rogowski-passages-080323-42185390a09a401c8d3850ceb1ebd27d.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A pel\u00edcula, nesse sentido, \u00e9, portanto, meramente expositivo e introdut\u00f3rio. As atitudes dos personagens e as din\u00e2micas entre eles n\u00e3o alimentam a discuss\u00e3o sob a dire\u00e7\u00e3o resoluta do americano, servindo apenas para estabelecerem a epiderme da obra como um todo. Tudo o que \u00e9 visto, dito e encenado ali diz exatamente a mesma coisa do in\u00edcio ao fim, sem que ocorra uma evolu\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria trama. Ainda assim, Ira registra com sutil precis\u00e3o esse eterno caminhar do ser humano em busca de si, de quem busca-se ser e do que podemos viver &#8211; sozinho ou com sorte com algu\u00e9m que, de fato, nos compreender\u00e1, sem que nenhuma liberdade seja podada. No decorrer do filme, Agathe e Martin entendem que essa realidade de Tom\u00e1s n\u00e3o os pertence e eles podem exercer o seu direito de escolha, o seu direito de simplesmente irem embora sem olhar para tr\u00e1s. J\u00e1 Tom\u00e1s termina o filme ainda iluminado pelo vermelho do amor, miser\u00e1vel em sua solid\u00e3o provocada pelos seus pr\u00f3prios atos, mas tor\u00e7o para que, em sua pr\u00f3xima parada, ele entenda que ningu\u00e9m \u00e9 o centro do universo e esse \u00e9 um dos maiores aprendizados para se viver sozinho ou com algu\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A complexidade das rela\u00e7\u00f5es humanas nunca vai deixar de ser um mist\u00e9rio, nunca ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar um manual para nos acompanhar no caminhar da vida,&hellip; 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