Crítica | Valor Sentimental [2025]

Filmes que partem de experiências autobiográficas tendem a carregar uma densidade emocional particular. Não porque estejam necessariamente ancorados em fatos verificáveis, mas porque nascem de um núcleo afetivo reconhecível, anterior à própria organização narrativa.

A arte, em qualquer de suas formas, vale-se de seus próprios meios para dar corpo a emoções e sentimentos que, para muitos, dificilmente encontrariam expressão no plano ordinário da vida. No caso do cinema, ainda que inexista qualquer compromisso com a veracidade factual, o que importa é a capacidade de fazer o espectador acreditar que está diante de algo vivido, íntimo, sensível e, sobretudo, verdadeiro.

É justamente nesse ponto que Joachim Trier demonstra pleno domínio, como já havia feito em A Pior Pessoa do Mundo (2021). Com tom biográfico ou não, em Valor Sentimental, sua força não se constrói por meio de apelos fáceis ou por qualquer forma de chantagem emocional, mas pela contenção.

Mesmo ao lidar com temas delicados como depressão ou suicídio, o filme aposta na fricção entre silêncio e gesto, evitando sublinhar dores que já estão inscritas na própria dinâmica das relações. O resultado é uma experiência que se apoia menos na empatia imediata e mais em uma sensação persistente de busca por reconhecimento e validação.

A escolha pela metalinguagem — a ideia do filme dentro do filme — insere a obra em uma tendência recorrente do cinema contemporâneo, o que, por si só, não é um problema. O risco surge quando o jogo autorreferente resvala no exibicionismo ou na autoindulgência, um limite sempre estreito entre reflexão e vaidade. Trier, no entanto, transita por esse território com precisão.

Em Valor Sentimental, a metalinguagem funciona não como comentário narcisista sobre arte e criação cinematográfica, mas como extensão orgânica de personagens que, assim como ele, parecem encontrar na encenação uma via mais clara para elaborar dores e afetos que não conseguem articular no plano da intimidade.

Nesse sentido, Gustav, o veterano diretor de cinema interpretado por Stellan Skarsgård, faz as vezes de um duplo ficcional do próprio Trier. Tal qual o cineasta, o personagem recorre ao ofício como mediação emocional, valendo-se do cinema para dizer aquilo que é incapaz de externar em sua “vida real”.  

A negação explícita e reiterada de qualquer traço pessoal em seu roteiro mais recente contrasta com a eloquência dos atos: seja na relação cuidadosamente construída com a atriz outsider vivida por Elle Fanning, seja na insistência em escalar a própria filha e o neto — este último, uma evidente representação de si mesmo —, tudo aponta para o foro íntimo que o discurso insiste em disfarçar.

Com humor preciso, o filme se apresenta a partir de Nora (Renate Reinsve), revelando suas angústias e sua instabilidade emocional. Logo na sequência inicial, compreendemos quem ela é, como se comporta e o peso que carrega. À semelhança do pai, ela se vale do próprio ofício — no seu caso, a atuação — como fuga, evitando o confronto direto com a realidade. À medida que a narrativa avança, as razões do afastamento familiar vão sendo progressivamente percebidas, nunca plenamente explicadas, em um clima de tensão constante, suavizado apenas pela tentativa hesitante de reaproximação após um evento trágico.

Em contraste com os corredores da casa, onde ecoavam vozes de lamúrias, angústias e desabafos — ouvidos pelas meninas através das paredes da sala da mãe, psicanalista —, as duas irmãs crescem imersas em uma linguagem da dor que nunca se converte em escuta efetiva dentro da própria família. Cercadas por discursos de cura, compartilham, paradoxalmente, o mesmo silêncio e a mesma carência de afeto paterno, lidando, cada uma à sua maneira, com aquilo que se deseja, mas nunca se alcança.

Agnes (Inga Ibsdotter), a irmã mais nova, surge como o eixo silencioso no fogo cruzado entre o pai e Nora. Não ocupa o papel de mediadora moral nem de figura redentora, mas encarna o esgotamento de anos de conflitos mal resolvidos. Sua aparente complacência não nasce da indiferença, mas da exaustão, e também de uma recusa deliberada à performance emocional dos demais.

Em um universo em que o pai se expressa pelo cinema e sua irmã mais velha pelo teatro, Agnes representa a escolha consciente de quem opta por não encenar a própria dor. Personagem que poderia facilmente se perder na economia do roteiro, ganha, pela atuação contida e pela escrita precisa, um destaque merecido, funcionando como contraponto à teatralidade que estrutura essas relações, talvez justamente por ter escolhido uma vida considerada “tradicional”.

O pai, por sua vez, demonstra maior facilidade em se relacionar com o neto do que com as próprias filhas, relação esta sempre mediada pelo subterfúgio do cinema (nas filmagens despretensiosas), da mesma forma que fizera com Agnes nos raros momentos em que lhe dedicou atenção plena, ainda criança, quando contracenaram juntos em um de seus filmes.

Os anos de descaso e afastamento, contudo, recaem com mais peso sobre Nora, que em determinado momento revela sua incredulidade diante da capacidade da irmã de se reconstruir após traumas tão profundos vivenciados por elas. É aí que o filme atinge seu ponto mais alto, oferecendo uma das cenas de diálogo mais belas dos últimos anos, marcada por uma emoção represada e sustentada por atuações de notável intensidade, com destaque para Renate Reinsve, que se consolida cada vez mais como uma das grandes atrizes de sua geração.

As falas de gratidão e altruísmo trocadas entre as irmãs iluminam o que por tanto tempo permaneceu à sombra, e o reconhecimento de que Nora e o pai são mais semelhantes do que supunham dá origem a um momento difícil de assistir sem se emocionar. A cumplicidade das irmãs transparece não como catarse, mas como a certeza de que, mesmo na ausência do pai, sempre tiveram uma à outra, seja para levá-la à escola, seja para protegê-la de si mesma.

Em Valor Sentimental, o cinema, para Gustav, Nora e Agnes, não se apresenta apenas como talento ou vocação, mas como herança ambígua. É por meio dele que Gustav se aproxima das filhas quando falha como pai, e é também através dele que transforma o afeto em substituto, em gesto mediado, ensaiado, nunca plenamente vivido.

A câmera cria laços, mas também distâncias, e oferece recompensa onde deveria haver presença. Nora, ao ocupar esse mesmo espaço, parece herdar não apenas o ofício, mas a própria incapacidade de distinguir criação e relação, um legado que a atravessa antes mesmo de ser escolhido, e que o filme observa sem oferecer a ela, ou ao espectador, qualquer certeza de que esse seja realmente um caminho desejado.

No fim, por mais que não haja um gesto de redenção plena — algo, aliás, que o filme jamais se propôs a oferecer —, o breve suspiro de autoaceitação mútua entre pai e filha, ainda que tardio, aponta para um estreitamento possível da relação nos últimos anos de vida de Gustav.

Valor Sentimental, indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, afirma-se como uma obra rara, original e genuinamente sensível em meio ao emaranhado de produtos vazios de ideias, marcados por repetições e fórmulas batidas, além de consagrar aquela que provavelmente seja a melhor performance da carreira de Stellan Skarsgård.

Cinema com “C” maiúsculo.