
Dirigido e roteirizado por Clint Bentley, e já apontado como uma das principais apostas da Netflix para a campanha do Oscar de 2026, Train Dreams adapta a novela homônima do californiano Denis Johnson, publicada oficialmente em 2011 a partir da versão original que havia antes aparecido na revista literária The Paris Review, em 2002.
Na tradição do cinema contemplativo, aquele que encontra profundidade justamente na simplicidade, a narrativa ilumina vidas marcadas pela precariedade, pela instabilidade econômica e pela busca de pertencimento em um país que oscila permanentemente entre promessa e desilusão.
Ainda que cada um com um tom próprio, o lirismo elegíaco de Johnson em Train Dreams ecoa de imediato o imaginário poético e telúrico de Terrence Malick (A Árvore da Vida), enquanto dialoga com o hibridismo documental de Chloé Zhao em Nomadland (2020) e com a melancolia rural na literatura de John Steinbeck em Ratos e Homens (1937).
São obras que gravitam em torno de personagens à margem do “sonho americano”, caminhando por espaços vastos, tanto geográficos quanto simbólicos, enquanto lutam para preservar alguma dignidade diante da perda e da solidão. Em Train Dreams, trata-se, sobretudo, de um filme sobre a sensibilidade e a passagem do tempo. Bentley acompanha os oitenta anos de um homem comum — do final do século XIX aos anos 1960 —, entre realidade, sonhos e delírios.
A vida de Robert Grainier (Joel Edgerton) é narrada em terceira pessoa e, de forma acertada, sem qualquer apelo melodramático. Sua dor é seca, a dor de um homem “diferente”, sem estudo, sem família, sem rosto e sem lugar no mundo, que experimentou apenas alguns minutos de felicidade plena antes de retornar à lenta erosão de uma existência fadada ao anonimato.
O filme jamais se interessa em forjar a jornada do herói ou em celebrar algum triunfo individual; ao contrário, expõe uma nação erguida sobre vidas descartáveis, reduzidas à força bruta que move a engrenagem nacional. Grainier encarna, em sua silenciosa insignificância, o destino de milhares de trabalhadores braçais que construíram um país ainda cicatrizado pela Guerra Civil, homens invisíveis, sem legado e herdeiros, que desconhecem até a própria origem.
E é justamente essa a linha que Bentley decide seguir até o final. Embora registre, de modo breve, a deportação em massa de famílias chinesas e a xenofobia que marcava — e ainda marca — a sociedade norte-americana, o filme opta por não se aprofundar tanto no tema. A escolha não soa como omissão, mas como coerência, já que Bentley evita abrir frentes narrativas que desviem do eixo central da obra, a própria passagem do tempo e a maneira como ela corrói e redimensiona todas as coisas, inclusive a vida de Grainier.

A modernização dos meios de produção atua como prova de que o tempo corre sem pedir licença, arrastando consigo tudo o que encontra, indiferente ao esforço humano. Em Train Dreams, o trabalho de uma vida toda se torna obsoleto em questão de segundos, como quando o “chefe”, após enaltecer a grandiosidade do feito daqueles homens, é imediatamente sucedido pelo plano da ponte monumental que aposenta a ferrovia recém-construída, apagando em um instante o sentido de tanto sacrifício.
A mesma lógica se repete na relação do “old man” com a serra elétrica: a máquina que deveria facilitar sua vida torna-se, na verdade, o lembrete de que a força humana já não é necessária. O tempo, aqui, não distingue quem se adapta ou quem fica para trás, ele simplesmente passa.
Essa indiferença é capturada com particular contundência no reencontro de Grainier com um antigo colega de trabalho, anos depois, que mal se lembra da trágica morte de um amigo em comum; um retrato do desvanecimento da memória individual e coletiva, e do modo como décadas, séculos até, reduzem vidas inteiras a notas de rodapé. A passagem do tempo é sempre implacável, sem preparação, e revelada, sobretudo, nesses reencontros que expõem o quanto tudo — pessoas, ofícios, afetos — está condenado ao desaparecimento.
E anda, em Train Dreams, lado a lado com a vida bucólica que parece intrínseca à existência de todos aqueles representados pelo protagonista. O filme mostra o homem como apenas mais um componente submetido às forças da natureza, jamais seu senhor. As árvores que “revidam” são lembranças de que o mundo natural permanece soberano e impassível diante das ambições, misérias e fragilidades humanas.

Na pureza infantil e circunstancial do personagem vivido por William H. Macy (excelente), cuja inocência lhe permite saborear as pequenas maravilhas do entorno, há a impressão de que ele percebe algo que escapa aos demais, a graça silenciosa das coisas simples, o encanto que persiste apenas para aqueles que ainda sabem — ou ainda têm tempo — de olhar.
O filme é lento e contemplativo, fiel à sua proposta inicial. Joel Edgerton entrega uma atuação de contenção rara, modulada para dentro, encarnando com precisão a vida miserável e trágica de um homem simples e bom. Sua expressão pesada, as rugas marcadas, o olhar sempre à beira do desamparo, muitas vezes falam por si.
A fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, potencializa essa contenção ao compor imagens de beleza austera, com a utilização de luz natural, em que a vastidão das paisagens funciona como extensão emocional do protagonista, projetando para fora aquilo que ele jamais verbaliza.
No fim, a trajetória de Robert Grainier termina como começou: em silêncio. Como as botas presas nas árvores, lentamente consumidas pela natureza, resta a lembrança de que nada resiste ao tempo, e de que até os vestígios mais íntimos são, cedo ou tarde, devolvidos ao solo que nos precede e nos sucede.

Advogado, capixaba e vascaíno.
