“O silêncio é para todos diante da verdade”
– A mulher que canta.
Nos últimos dias, Incêndios, de Denis Villeneuve, voltou às telas brasileiras, quinze anos após o lançamento. A obra franco-canadense adapta a peça homônima de Wajdi Mouawad, dramaturgo libanês que, em 2003, escreveu a história dos irmãos gêmeos que recebem, da mãe, duas cartas: uma destinada ao pai que julgavam morto; outra ao irmão cuja existência desconheciam. Fica, inclusive, a recomendação de leitura da peça completa, facilmente encontrável na internet.
Em Incêndios, Villeneuve constrói a narrativa em um Oriente Médio inventado, nunca explicitado geograficamente. As cidades, que dão título aos ‘capítulos’, também não existem. Pode-se dizer, então, que o filme opera como um espécie de ficção real.
A via-crúcis da mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal), poderia ser a de tantas outras, e o país, fundamentalista e tomado pela guerra civil, poderia não ser um país, mas qualquer país que mata a si mesmo pela crença. O fato de o autor original ser libanês naturalmente remete à guerra civil do Líbano, mas ter essa certeza não interfere na concepção da obra, nem tampouco em sua força.

Na cena inicial, a leitura do testamento de Nawal anuncia a tragédia que a acompanhou por toda a vida. O pedido de abstenção do velório e do sepultamento sem lápide, nua e de costas para o mundo, atesta que ela não se julgava digna da convenção até que a verdade fosse revelada e, enfim, encontrasse alguma forma de libertação.
Foi isso que os filhos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon Marwan (Maxim Gaudette), receberam de herança: verdades silenciadas e, com elas, a missão de descobrir quem foi sua mãe, que, no terço final da vida, esforçou-se claramente para abstrair todo trauma e proporcionar-lhes uma infância normal, ou algo que se aproximasse disso, no Canadá.
A partir daí, Villeneuve narra a história intercalando as linhas temporais, sem prévio aviso, nem pelo roteiro, nem por artifícios visuais, de modo que passado e presente se confundem. De um lado, a vida pregressa da mãe, em meio à guerra civil e ao colapso moral de um país que se devora; de outro, a filha, refazendo os passos maternos e penetrando, pouco a pouco, na tessitura do horror, experimentando com atraso o sofrimento daquela que viria a ser uma pária, subjugada justamente por quem deveria tê-la protegido.
A perda da inocência da mãe, por assim dizer, nunca carrega intenção; pelo contrário, foi esmagada e escanteada pela família, pelo Estado e pela religião. O que sobra, aliás?
O encontro entre o teatro de Wajdi Mouawad e o cinema de Villeneuve, aqui, retrata a intimidade da guerra, que, por tão trivializada nos últimos anos, muitas vezes obscurece o fato de que existem pessoas reais, dilaceradas física e espiritualmente ao longo de toda a vida.
Hoje, rever Incêndios é olhar para Gaza e para o conflito que a ronda há séculos. A mesma lógica de ódio cíclico, da vingança que se herda e da fé que se deforma, repete-se sob novas bandeiras e novos nomes, mas com as mesmas feridas. O filme, ao universalizar a dor e ocultar o território, parece antecipar, ou apenas relembrar, que a guerra, em qualquer tempo ou lugar, é sempre íntima. Por trás de cada ruína há um rosto; por trás de cada número, uma história que jamais encontrará paz.
A história de Nawal Marwan, civil humilhada, torturada, estuprada, degradada e ferida, personifica a guerra, personifica Gaza, personifica todo um povo suprimido e massacrado em nome da (não apenas) religião, revelando, ainda que de forma indireta, a lógica que alimenta o extremismo revanchista. Em Incêndios, como em Gaza, a guerra deixa de ser um fato político e se revela pelo que sempre foi, uma tragédia humana que se repete, muda de nome, mas nunca de rosto.
O primeiro filho de Nawal, fruto de um amor genuíno, tão destoante da realidade em que foi concebido, nasce já condenado ao fim. A brutalidade e a falta de humanidade são rápidas e implacáveis. Em nenhum momento, por mais sangrenta que seja a cena, Villeneuve prepara o espectador para o que está por vir. E “preparar” significa não ensaiar ou criar progressivamente um cenário de tensão até o ápice; simplesmente é o que é, o real pelo real. O filme, por si só, pelo efeito que provoca a todo instante, serve de preparação (ou de total ausência dela) para a barbárie vivenciada. Acostume-se.

Essa frieza narrativa torna extremamente difícil acompanhar a história Nawal Marwan, a mãe, sem se comover. A injustiça e a impotência a reduzem a nada, e o caminho que lhe resta parece ser o único, mesmo que no limite do aceitável, já que, como ela própria lembra, tentar deter a guerra com palavras não surte efeito algum. Porém, é igualmente difícil “comprar” a ideia do que ela se tornou, não no sentido moral, mas na dificuldade de torcer por uma redenção plena ou um arco catártico da personagem.
Diferente de tantas outras produções, em que da inocência nasce o poder, aquele personagem ingênuo que se torna temido, em Incêndios não sentimos isso. Você não clama por vingança ou redenção, você apenas sofre por aquela vida ceifada pela guerra. É o retrato evidente de uma alma destroçada, e não há necessariamente algo de virtuoso por trás.
Além disso, a forma como Villeneuve conta a história confunde não apenas as duas linhas temporais, mas também a consciência de Jeanne, a filha, com a nossa, do espectador. À medida em que ela descobre quem foi sua mãe, por meio das reações dos demais personagens, somos levados a sentir o que ela sente e a compartilhar a compreensão profunda daquela mulher e do porquê do mistério das cartas.
A reação de Simon, o filho, de desdém ou de “deixa quieto”, também nos é transmitida pelo descobrimento da vida miserável da mãe, o que nos leva a perceber a dimensão de sua força, que, na medida do possível, escondeu por tantos anos, em forma de sacrifício, protegendo os filhos e blindando-os do horror.
Vale destacar também o êxito do filme no que se propõe: explorar a guerra, o fundamentalismo religioso e o retrato tão real que assola não um, mas vários países há séculos. Ao mesmo tempo, expõe o individualismo e o humanismo obscuro da guerra, sem deixar de ser também uma excelente história de suspense, como se um elemento não bastasse ao outro. As descobertas progressivas dos filhos, concomitantes à narrativa da mãe, resultam em um thriller excepcional e, se fosse apenas isso, já seria suficiente para impressionar.
E então chegamos ao plot twist, tão comentado e repetido ao longo dos anos. A cena da piscina, já celebrada nas redes como “perturbadora para quem viu”, é realmente devastadora.

A avaliação de um filme, porém, não depende necessariamente de um plot extraordinário ou de um final triunfante; na verdade, muitos dos grandes sequer contam com uma virada arrebatadora. Isso porque, não raras vezes, na ânsia de surpreender, forçam-se situações inverossímeis e destoantes da lógica interna da narrativa, comprometendo, por consequência, toda a obra.
Por outro lado, quando bem-executado, a sensação de presenciar aquilo é ótima e, mais que isso, potencializa o filme como uma excelente história com uma virada igualmente excelente e um final à altura. Incêndios alcança exatamente isso, um filme excelente com o “algo mais” de um final surpreendente, que, sem dúvida, fez história como um dos mais marcantes do cinema recente.
A história de Nawal e de seus filhos, o mistério que os persegue — e nos persegue —, a relevância do tema, a primazia da trilha sonora e a precisão da mise-en-scène já seriam suficientes para sustentar Incêndios, mesmo sem a reviravolta. Além disso, a competência de Villeneuve se revela tanto na forma seca e direta com que filma a brutalidade quanto na construção do suspense em torno das cartas. Embora a narrativa avance, ele se recusa a oferecer grandes pistas sobre o que está por vir, como na introdução do carrasco, que passa quase despercebido e só mais tarde se revela central para o desfecho.
E é justamente por isso que Incêndios permanece um filme de impacto avassalador, sustentado pela relevância de sua história e por uma atualidade que impressiona mesmo quinze anos após a estreia. O filme captura um Villeneuve ainda “engatinhando”, mas já trilhando, com firmeza, o caminho que o consagraria como um dos grandes cineastas de sua geração.

Advogado, capixaba e vascaíno.
