
“O caminho escarpado, árduo, obscuro, coberto de negra fumaça, é trilhado por entre a silenciosa escuridão. Não longe, aproximaram-se da entrada do solo elevado: neste momento, temendo que ela o abandonasse e ávido de vê-la, o amante voltou os olhos, e imediatamente ela foi reconduzida, e estendendo os braços para ser agarrada e esforçando-se para agarrar, a infeliz nada toma senão os ares que se dissipam. E agora morta pela segunda vez nada murmura contra seu esposo. O que, de fato, haveria de se queixar, senão o fato de ser amada?”
(O mito de Orfeu e Eurídice no Livro IV das Geórgicas de Virgílio)
Conta o mito de Orfeu que, inconsolável após a morte de sua amada Eurídice, decidiu atravessar o limite que separa os vivos dos mortos. Com sua música, sublime e irresistível, foi capaz de comover as próprias forças do submundo e recebeu uma ingrata condição: poderia conduzi-la de volta ao mundo dos vivos, desde que não olhasse para trás até que ambos alcançassem a superfície.
Orfeu caminhou em silêncio, guiado apenas pela esperança. Mas, tomado pela dúvida e pelo medo de caminhar sozinho, voltou-se antes da hora. No instante em que seus olhos buscaram os de Eurídice, ela desapareceu novamente na escuridão, desta vez para sempre. Restou-lhe aquilo que ninguém poderia lhe tomar. A música. E fez dela a própria vida.
Dirigido por Chloé Zhao, Hamnet: a vida antes de Hamlet nos conduz a um momento anterior ao nascimento de uma das obras mais célebres da dramaturgia ocidental. Mais do que uma recriação histórica, porém, a narrativa se interessa pelo íntimo que precede a concepção artística; o casamento entre Agnes e William Shakespeare, o cotidiano de uma família na Inglaterra elisabetana e, sobretudo, a presença incômoda de um destino trágico que os ronda silenciosamente desde o início.
Apresentada ainda cedo como a “filha da bruxa da floresta”, Agnes (Jessie Buckley) mostra uma sensibilidade além do ordinário, marcada por uma percepção singular do mundo, que se manifesta tanto como intuição acerca do destino quanto na relação espiritual que mantém com a natureza. Em determinado momento, surge o presságio de que aquela família experimentará uma perda irreparável, ao mesmo tempo em que o futuro de William (Paul Mescal), cujo nome completo é pronunciado apenas no último ato, será marcado por uma grandeza incomum na escrita.
A partir da tragédia anteriormente anunciada, estabelece-se enfim a premissa do filme: o luto e as diferentes formas de enfrentá-lo. Cada um, à sua maneira, tenta lidar com a partida precoce de quem se ama, experiência que dificilmente encontra amparo em explicações capazes de satisfazer a avidez humana por respostas racionais. A direção, inclusive, evita deliberadamente oferecer uma explicação causal para os acontecimentos e se recusa a reduzir a tragédia a um simples encadeamento lógico de fatos.

O filme passa, então, a observar como o luto se manifesta de maneira distinta em cada um dos pais. Agnes permanece imersa na dor, carregando-a, segundo suas próprias palavras, a cada segundo, como se todo o peso da perda repousasse exclusivamente sobre seus ombros. Ressentida com a ausência do marido no momento da tragédia, culpa-o por não ter sequer se despedido do filho. Ao mesmo tempo, culpa a si mesma por ter subestimado a saúde de um dos filhos ao priorizar a da outra, e por acreditar ter interpretado equivocadamente, em seu juízo, a profecia que lhe fora anunciada.
William, por sua vez, mostra-se incapaz de confrontar diretamente os próprios sentimentos e refugia-se no trabalho e na distância, sob o discurso de que a vida precisa seguir. Há indícios de um desequilíbrio emocional que já se insinuava anteriormente, perceptível sobretudo na relação difícil com o pai, no talento obsessivo para a escrita e no persistente sentimento de inadequação diante de uma vila provinciana, pequena demais para suas ambições.
Dali em diante, marido e mulher passam a conviver com a ausência do filho, mas também com a ausência um do outro, produzida pela distância que os separa física e emocionalmente. Com William em Londres, e nem mesmo a perda do filho sendo capaz de afastá-lo de sua obstinação, o filme prepara o terreno para o último ato.
Assim como em Hamlet, que inaugurou o período das “grandes tragédias” shakespearianas, a história se desenrola a partir de conflitos internos profundos e de arquétipos imperfeitos, e alcança o ápice, na peça e no filme, em seu desfecho. Aliás, para aqueles que já conhecem a peça de Shakespeare, a releitura de Chloé Zhao oferece uma experiência ainda mais intensa e reveladora.
A oportunidade de compreender a motivação por trás de grandes obras atemporais desperta no espectador uma curiosidade capaz de manter seu envolvimento ao longo das pouco mais de duas horas de projeção. A escolha de Zhao de reproduzir fielmente diálogos e monólogos icônicos — incluindo o célebre “ser ou não ser” — potencializa a imersão do público e contribui para a verossimilhança histórica do filme.
O clímax de Hamnet: a vida antes de Hamlet se dá na própria representação da peça original, inclusive com o duelo final que consagra a narrativa de Shakespeare. É nesse momento que Agnes chega desconfiada e emocionalmente devastada, já predisposta a rejeitar o gesto do marido, de quem se afastou desde a tragédia que assolou a família. William, como Orfeu, demonstra por meio da encenação que a arte é tudo o que lhe resta e que seu compromisso com a memória do filho agora se manifesta no palco.

Inicialmente relutante, ao julgar profanado o nome de seu filho, Agnes passa gradualmente a compreender a verdadeira intenção de William. Ele, embora dramaturgo, escolhe subir ao tablado e atuar, transformando a representação em um espaço íntimo de reencontro. A semelhança física com o filho, os cabelos dourados, a equivalência entre os nomes — Hamlet e Hamnet — e o teor dos próprios diálogos convertem a cena em um momento profundamente pessoal de luto e reconciliação.
Os elementos fantasmagóricos presentes em ambas as obras também reforçam o simbolismo desse encontro; se, na peça original, o filho é atormentado pelo fantasma do pai, aqui é o pai quem permanece assombrado pela perda precoce do filho. Assim como o Rei da Dinamarca surge em espectro diante do Príncipe Hamlet, William, no palco, retorna à “vida” para, enfim, despedir-se daquele de quem a morte lhe negara a despedida, ao som da voz de Agnes, que, naquele instante, finalmente compreende que “eles trocaram de lugar”.
O teatro, historicamente associado à criação e ao reconhecimento público, torna-se para ele um meio incomum de expressão da perda, do arrependimento e da necessidade tardia de reconciliação. Ao dar forma à própria dor, William restitui ao filho a presença que a realidade lhe retirou cedo demais, ainda que apenas na efemeridade de uma cena.
Se, no mito, Orfeu desce ao mundo dos mortos apenas para perder novamente Eurídice ao voltar o olhar antes de alcançar a luz, em Hamnet é Agnes quem, ao fim da travessia do luto, pede a William Shakespeare que se vire para trás… e ele se vira. Ao voltar os olhos para ela, deixa de caminhar sozinho na escuridão e, sem dizer uma só palavra, faz-se entender no sorriso de alívio da mulher amada.
“Eis a questão.
O que é mais nobre? Sofrer na alma
As flechas da fortuna ultrajante
Ou pegar em armas contra um mar de dores
Pondo-lhes um fim?”

Advogado, capixaba e vascaíno.
