Nota do filme:

“Nunca pensei no que viria depois da criação.”
Victor Frankenstein
Frankenstein acompanha Victor Frankenstein (Oscar Isaac), um cientista brilhante que tenta vencer as barreiras da morte. Em sua busca egocêntrica, realiza um experimento monstruoso e acaba por dar vida à uma Criatura (Jacob Elordi) sem, contudo, saber que ela o levará à sua própria destruição.
Originalmente publicado em 1818, o romance de Mary Shelley é um dos maiores clássicos do terror e da ficção científica. Com incontáveis versões feitas para o Cinema, agora é adaptado pelo aclamado diretor Guilhermo del Toro, que conta com grande elenco ao seu dispor (para além da dupla já citada, tem-se Christoph Waltz, Mia Goth, Felix Kammerer, dentre outros), o que, naturalmente, traz um forte concorrente para premiações que virão.
Frankenstein é divido em três partes: (i) um curto prólogo; (ii) a história sob o ponto de vista de Victor; e (iii) a história sob o ponto de vista da Criatura. Tal divisão reforça um dos temas centrais da obra, qual seja, a importância da perspectiva sobre eventos, bem como permite uma boa divisão de foco entre os dois indivíduos mais importantes do filme.

Para se evitar uma eventual fadiga, tendo em vista a alteração de perspectivas, não há sobreposição entre os fatos narrados. Isto é, a Criatura não rememora as cenas já contadas por Victor, ou vice-versa, de modo que a audiência sente que sempre se move para o presente, sem prejuízo do ritmo do longa.
Não é segredo para ninguém (não se aceitará alegações de spoilers acerca de um romance que existe há mais de 2 séculos) que a história de Frankenstein gira em torno do conceito de monstro, isto é, sobre como a alcunha recai sobre a Criatura, por conta da sua aparência grotesca, mas, na realidade, deveria recair sobre Victor. Justamente por isso, del Toro (A Forma da Água, O Labirinto do Fauno, Pinóquio) é o diretor perfeito para esta empreitada e, aqui, brilha mais uma vez.
A experiência de del Toro com efeitos práticos e figurinos elaborados é algo que eleva esta obra de forma grandiosa. Nas mãos de um indivíduo menos talentoso ou, pior, que se importasse menos com o produto final, os temas abordados perderiam a seriedade e se tornariam uma paródia de si mesmos. Felizmente, a sua paixão por monstros e pelo sobrenatural são palpáveis aqui.
A forma pela qual a narrativa é transmitida é pouco criativa (ao menos para os padrões atuais, vez que, à época de lançamento do romance, era inovadora), eis que os personagens apenas recontam eventos para terceiros. Contudo, o modo como esta recontagem ocorre, isto é, por meio da perseguição de Victor pela Criatura, somada à reação destes terceiros à aparência grotesca da Criatura, aumentam a profundidade do dilema em tela. A divisão em três atos, então, reforça a temática central ora abordada.
O brilhantismo de Victor e as tragédias pelas quais passou na infância o blindam às suas próprias incapacidades e defeitos. Não apenas porque, para além dos traumas, teve uma infância mimada e bastante privilegiada, mas, também, porque em seu cientificismo desconsidera as ramificações morais do seu trabalho.

A citação no início deste trecho encapsula perfeitamente este entendimento, uma vez que o personagem jamais se pergunta se, efetivamente, deveria dar vida a algo morto ou, ainda, o que isso acarretaria na prática. Ao enxergar as questões meramente em termos científicos, reduz seres humanos a receptáculos de carne que, por questões evolutivas apenas, desenvolveram senciência.
Esta desumanização da humanidade faz com que ele desconsidere barreiras e, ainda, seja cego à contradição evidente na sua busca. Isto porque, a bem da verdade, Victor não supera a morte, mas, sim, cria vida nova, algo que, a bem da verdade, já é feito desde que o mundo é mundo. Ocorre que, tendo em vista o falecimento de sua mãe no parto de seu irmão, Victor associa nascimentos naturais ao óbito, motivo pelo qual busca métodos alternativos de criação de vida.
Mia Goth interpreta tanto a mãe de Victor quanto o seu interesse amoroso no presente (Elizabeth), o que reforça leituras incestuosas acerca da relação entre mãe e filho. Desde o início é possível perceber algo de estranho no modo como eles se relacionam, o que é reforçado pela escolha de elenco e pela ausência paterna.

Quanto ao seu pai, a influência fria e violenta é perfeitamente representada na sua própria relação para com a sua criação. O paralelo entre Victor e Leopold Frankenstein (Charles Dance) é evidente, sobretudo por conta do tratamento que depreende para com a Criatura. O abuso físico utilizado como método de ensino deixa claro que Victor se tornou uma versão de seu próprio genitor.
Isto, associado ao fato de que Victor é sempre visto bebendo leite, bebida esta associada à infância, nos faz crer que, a despeito da sua inteligência, jamais amadureceu para além do seu eu-criança. São fatos que recontextualizam sua busca, uma vez que, sob esse novo prisma, mais parece uma birra de uma criança mimada.
Ademais, a sua forma de tentar superar a morte nada mais é que um meio de criar vida sem o envolvimento do feminino. Ora, Victor não tenta aperfeiçoar as técnicas de parto, por exemplo, de forma que mais parece que culpa a própria mãe pela morte. Ao final, chega a uma solução que não supera per si o perecimento natural do ser humano, pois, reitera-se, não revive, mas sim cria nova vida. Há, portanto, uma contradição inerente na busca do personagem.
O resultado é uma Criatura, que, criada à margem da sociedade, exala uma inocência natural. O seu desenvolvimento, aliado à descoberta da maldição que é a vida eterna, são o ponto forte da obra. Tudo, é claro, elevado pela excelente performance de Jacob Elordi. Uma grata surpresa, pois, no momento de anúncio do elenco, foi o nome recebido com maior reserva.
Frankenstein não revoluciona o romance de Mary Shelley, tão somente o retrata sob uma luz respeitosa e compreensiva. Entender o material de origem é o grande mérito de del Toro. Isto, aliado ao histórico e experiência do diretor, fez com que fosse a pessoa perfeita para este projeto, fazendo com que o resultado final fosse grandioso.

Carioca, advogado e apaixonado por cinema. Busco compartilhar um pouco desse sentimento.
