Uma breve análise sobre a terceira terceira de Fargo

A terceira temporada de Fargo, série exibida nos estados unidos pelo canal a cabo Fx, chegou ao fim na última quarta-feira (21) com o banho de sangue e obscuridade moralmente de sempre. Contudo, diferente dos anos anteriores, Noah Hawley escolheu uma trama muito mais autocontida para dar segmento a sua bem sucedida antologia. Além disso, o terceiro capítulo da fanfic de luxo dos Irmãos Coen entra em sintonia com os nossos tempos ao abordar a sensação de incongruência que permeia nosso cotidiano. Sem assumir discursos políticos, o texto de Hawley propõe uma reflexão filosófica acerca da pós-verdade, com doses de existencialismo, e sem abrir mão do humor negro inerente ao universo de Fargo.

Depois de uma segunda temporada marcada por uma batalha sangrenta entre duas famílias mafiosas na década de 1970, a série avança no tempo até a Minnesota de 2010, onde os irmãos Emmit e Ray Stussy (ambos vividos por Ewan McGregor) não se bicam desde que o segundo decidiu trocar sua coleção de selos raros pelo Corvette do primeiro quando eram jovens. Os anos se passam, e a partir da venda dos selos, Emmit ganha dinheiro suficiente para investir no ramo de estacionamentos e obter sucesso. Por outro lado, Ray tornou-se um oficial de liberdade condicional fracassado, que passa seus dias coletando a urina e dirigindo o mesmo carro dos tempos de adolescência.

Quando decide comprar um anel de casamento para sua namorada, Nikki Swango (Mary Elizabeth Winstead), uma golpista em liberdade condicional, Ray procura Emmit para reivindicar o último selo da coleção. Diante da negativa, o casal decide roubar o item. Contudo, o que era para ser um pequeno roubo acaba saindo de controle e virando uma intricada trama de violência, assassinato e chantagem permeada por coincidências. Do outro lado, Emmit se vê a mercê dos objetivos nefastos de uma organização criminosa liderada por V.M. Varga (David Thewlis) após um empréstimo. Ao decorrer dos dez episódios, a chefe de polícia avessa a tecnologias, Gloria Burgle (Carrie Coon), tentará desvendar a verdadeira natureza desses fatos.

A principal fonte de humor da série continua sendo assistir a personagens idiotas tomarem decisões desastrosas e consequentemente comprometedoras. Contudo, outro diferencial dessa temporada é o aprofundamento de aspectos sobrenaturais dentro da trama, algo que de certa maneira serve de continuidade lógica para o que os fãs da série acompanharam no final da temporada anterior.  Essas forças do além surgem mais uma vez como um componente que de certa forma desequilibra a balança para o lado bom da história. Ainda assim, Hawley, é importante salientar, não coloca o lado bom e mal desse confronto necessariamente como pontos inflexíveis. Com exceção do escatológico Varga e da deslocada Glória, os demais personagens são colocados em permanente confronto com a natureza moral de suas ações.

E por fim, entre uma série de distintas e destorcidas definições de certo e errado, a temporada deixa parte fundamental de seu desfecho brilhantemente a cargo da fé de sua audiência. Assim, ao deixar em “aberto” se o grande vilão teve ou não a punição devida, a terceira temporada se destaca em relação a suas antecessoras. Hawley reconhece de certa maneira que existe uma quantidade limitada de histórias e desfechos possíveis para os contos ambientados naquele universo, e provavelmente isso deve ter motivado essa escolha artística. Enfim, no final das contas, foi o espectador quem saiu ganhando mais uma vez ganhando, ao assistir uma das fortes concorrentes ao posto de melhor série de 2017.

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