Crítica | Thelma (2017)

A juventude é uma época marcante na vida de qualquer pessoa. É nela que começamos a crescer de maneira mais acelerada, a descobrir coisas e novos universos e, principalmente, a se autoconhecer de maneira mais profunda. Durante esse período, criamos paranoias e aflições e construímos barreiras invisíveis em torno de nossas próprias habilidades e sonhos. A família, claro, tem um papel muito importante nessa fase, devendo auxiliar na resolução de problemas que parecem impossíveis e oferecendo o apoio necessário para o jovem indeciso nas primeiras decisões mais importantes de sua vida. Porém, esse papel também pode ser exercido de maneira contrária. Quando a base familiar é calcada num ideal mais religioso e conservador, certas liberdades nunca irão existir e, caso existam, serão gozadas de maneira velada pelo jovem que anseia em descobrir o mundo.

Thelma (Eili Harboe) é uma jovem universitária estudante de biologia que está passando por uma difícil fase de sua vida. Ao se mudar para Oslo, Noruega, a jovem se vê pela primeira vez distante da família, sempre muito presente em sua formação e que foi responsável pela construção de seu caráter e crenças, latentes em suas ações e pensamentos. Católicos fervorosos, os pais de Thelma sempre tentam manter o contato por meio de ligações telefônicas diárias que tentam explicitar e esmiuçar a rotina na faculdade. O pai (Henrik Rafaelsen), é aquele que mantém a maior proximidade e tenta evitar, com conselhos, que a filha entre em situações que desrespeitem a sua ideologia de pureza e santidade, como o consumo de bebidas alcoólicas, drogas ou a prática sexual (grande tabu da religião). Ao conhecer sua mais nova colega de turma, a jovem começa a despertar desejos e poderes (sim, poderes!) antes desconhecidos. Para completar, a jovem começa a sofrer com convulsões repentinas, aparentemente provenientes de algum estímulo externo.

Dirigido por Joachim Trier, o longa é uma novidade para aqueles que já estão acostumados a acompanhar seu trabalho. Após Oslo, 31 de agosto (2011) e Louder Than Bombs (2015), dois dramas densos, que tratam de temas como depressão, luto e decepções com a vida, o diretor surpreende ao criar uma história diferente, que flerta com os gêneros cinematográficos do suspense, do conto de fadas, do terror e, por que não, dos super-heróis. Segundo Trier em entrevista ao portal The Verge, “Uma grande parte dos filmes de super-heróis é muito estilizada, não se preocupa como deveria com temas como a moral ou o existencialismo”, por conta disso, o diretor decidiu representar algo autoral, criativo e que seja ao mesmo tempo importante e relevante para o público que o assiste.

O diretor começa o filme com aquela que é uma de suas principais características cinematográficas. Um take aéreo que mostra, bem ao fundo, Thelma caminhando, solitária, em meio a tantos outros alunos da universidade que nem sabem de sua existência. Esse recurso ressalta como a jovem está sozinha por ali, tanto física quanto mentalmente em um dos momentos de que mais precisa de apoio. No primeiro ato, a edição do filme é composta majoritariamente por cenas curtas, de corte rápido, que tentam estabelecer como é a rotina da garota. Quando já estamos mais acostumados à sua vida e já fomos introduzidos à Anja (Kaya Wilkins), sua melhor amiga e pessoa pela qual começa a nutrir sentimentos amorosos, as cenas se transformam em períodos mais longos, permeados por silêncios tensos e desconfortáveis que só aumentam a curiosidade acerca das habilidades da garota e de como ela fará para se desvencilhar dos ideais que a prendem e atrasam sua evolução. Além disso, a fotografia conta com recursos visuais incômodos, como o constante piscar de luzes, ora mais distantes (lâmpadas e postes), ora em primeiríssimo plano, como nas cenas em que Thelma realiza exames para investigar a causa de suas convulsões.

Com relação ao roteiro, o filme aborda a religião e os tabus da sexualidade e das relações homoafetivas como temas centrais. Diversas metáforas bíblicas são utilizadas para interligar esses tabus a pecados e são usadas para “justificar” as atitudes tomadas por seus pais na contenção dos problemas causados por suas aventuras e descobertas.Porém, em diversos momentos o filme flerta com a superexposição, o que atrapalha a sua construção inteligente e criativa, assemelhando bastante a história com filmes mais recentes, como: Corra! (2017), Raw (2017) e até mesmo Mãe! (2017) no que diz respeito à execução visual e narrativa dos temas abordados.

Thelma é uma experiência cinematográfica que irá incomodar diversas pessoas, algumas pelos motivos certos – por conta dos tabus religiosos – e outras apenas por utilizar recursos visuais não usuais. No geral, o filme é desenvolvido de maneira muito competente e mostra uma interessante faceta do diretor Joachim Trier. Vale a atenção do público por si só, mas também pelo fato de ser o filme indicado pela Noruega para a disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2017.

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