Encontros e Desencontros: O efêmero e o duradouro

Imagem: Focus Features

No geral as pessoas querem algo que dure, alguma coisa fixa, para poder chamar de “seu”. Para conseguir esse “algo” a ferramenta utilizada é o efêmero, de maneira que esqueçamos o ruim, o inútil e o firme, o realmente desejado, caia no nosso colo sem nenhum tipo de esforço.

O passageiro pode ser adquirido de diversas formas, porém, o preferido da raça humana são os entorpecentes, cigarro e álcool são os mais populares. As bebidas alcoólicas são variadas e o capitalismo envolvido na venda dessa substancia, faz com o que, um país onde a bebida mais popular é o saquê, veicule propagandas de uísque, algo tipicamente ocidental.

Propaganda que é feita por Bob Harris (Bill Murray), personagem principal de “Encontros e Desencontros”. Ator, ele vai até Tóquio para filmar e ser fotografado em veiculações de um uísque. Sentindo-se sozinho, entediado, desvalorizado profissionalmente (pois faz algo indesejado apenas pelo aspecto financeiro) e sem conseguir dormir devido ao fuso horário, o homem conhece Charlotte (interpretada por Scarlett Johansson). Compartilhando de sua falta de sono e do tédio (ela está acompanhando o marido em uma viagem de trabalho e ele não dá atenção a ela), os dois desenvolvem uma amizade e passam a se consolidar como escapismos um para o outro.

Sofia Coppola é elegante ao abordar uma amizade de maneira tão simples, usando da sensibilidade e da empatia do espectador para embasar um relacionamento. A atenção do filme não está na técnica deste (apesar de ser belíssima) mas na descoberta realizada pelo público quando ele se coloca no lugar de um dos dois personagens principais.

Ele faz isso, mesmo que não se dê conta, é fácil a identificação acontecer, o homem, casado, com filhos, desiludido com a família e a carreira, pensa ter algo ao qual se agarrar, para escapar do efêmero, mas descobre o oposto, assim entrando em uma crise existencial onde estão a tristeza e a esperança de um futuro melhor.

Esperança encontrada na figura de Charlotte, pois apesar de jovem e vivaz (ele se encanta devido a felicidade unida com a maturidade da jovem), ela passa mais ou menos pela mesma crise descrita acima. Casada há pouco tempo, não imagina o casamento indo para frente, sem esperança de filhos devido à falta de atenção do marido, ela encara a solidão. O vazio sentido pela personagem de Johansson fica muito bem ilustrado, tanto pela atuação excelente da atriz, quanto pelas escolhas de enquadramento realizadas pela diretora.

Quadros nos quais há a tentativa de mostrar os personagens incompletos, quase nunca vemos o casal sendo enquadrados de corpo inteiro, os planos médio (cintura para cima) e americano (dos joelhos para cima) são predominantes, e isso expõe como Murray e Johansson vão se tornando mais próximos na medida que o tempo passa, logo, gradualmente, o corpo deles passa a ser mostrado, até que chegamos a cena final, onde os dois são enquadrados de corpo inteiro e no mesmo local, revelando um longo relacionamento no futuro.

Em relação a fotografia, Coppola a explora de forma que o público descubra cada vez mais coisas sobre a amizade dos dois. Através da cor percebemos uma tensão sexual existente e claro, plausível, levando em consideração a aproximação crescente dos dois. Com a cor, as sensações de cada um são reveladas, Murray começa a projeção todo de preto, o que denota tristeza, com o passar do tempo, as cores passam a surgir no figurino deste, e isso fica bem claro na camiseta amarela utilizada na primeira festa na qual os dois vão juntos, a felicidade está estampada na cor.

Uma das coisas mais encantadoras nesse filme é a intimidade abordada nele, a forma com que essa é desenvolvida, nunca de maneira exagerada, rápida ou chocante demais (os filmes ruins de romance e drama fazem exatamente o contrário), mas o utilizado aqui é a ordem crescente dos sentimentos, do menor para o maior, do drink pago no bar, até o filme assistido junto no quarto, e por fim, a belíssima cena que fecha a viagem que somos convidados a fazer junto com eles.

Por falar nessa última cena, é bacana ver como o dialogo final entre os dois não é exposto ao público. Ora, porque seria? Aquele momento intimo não pertence a quem assiste, ele pertence de forma exclusiva aos personagens da trama. O importante para nós é que a fala final dos dois “Ok?” “Ok”, mostra que eles se resolveram, cabe ao espectador imaginar o dito naquele breve momento.

Imaginação que Sofia Coppola faz o público ter durante quase toda a obra, através da empatia criada logo nos primeiros minutos, com o uso do amor e da vontade de algo duradouro que todos nós temos, “Encontros e Desencontros” é sensível, respeitoso, bonito e expõe aquilo que há de melhor em cada um de nós, seja lá o que isso for.

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