Crítica | The Killing of a Sacred Deer

 

Mate o cervo, salve o caçador.

Ainda que engatinhe no conhecido cenário moderno e de difíceis impressões captáveis, o cinema que traz o irrigado teor de suspense explode em visões únicas como a do grego Yorgos Lanthimos. Qualquer estética instintiva, enquadramento cômodo ou diálogo bem parafusado é deixado de lado. No vazio que sobra, marcas do que foram pinceladas rebeldes para o fazer dramático da combinação. Uma denúncia da existência de bastidores para uma obra tão imortal e que desafia a consistência humana. No fim, The Killing of a Sacred Deer é tão indiferente quanto se apresenta. O ser humano aqui é a própria crítica, instrumento e, por ironia, espectador.

Parte do que a obra planeja traduzir ao seu final se revela na entrega e como ela se dá. Somos introduzidos ao contexto fechado e particular de uma sala de cirurgia em completo funcionamento. O bisturi não toca as mãos, o sangue não suja tanto. O coração se comporta. Vivo, vulnerável, à mercê. No topo, mas ainda abaixo da luz vigilante de toda a cena, o cirurgião. Contudo, o ofício médico é meramente lateral nesta contemplação que dura segundos. Munido apenas com a necessária frieza e o perseguido equilíbrio, torna-se apto para assumir seu ofício primário: o de juiz.

Steven Murphy (Colin Farrell) é apresentado como o protagonista responsável pelo fardo catalisador de todo o eixo dramático. Suas decisões e indecisões são sempre colocadas na balança. Pesam para mais ou para menos, mas nunca deixam de pendê-la para os outros personagens. A grande redoma familiar inflada pela tradicional família de excepcionais médicos traz à tona uma falsa consistência de aceitação. O real e a desinibição dele são aqui experimentados como a forma mais fácil de lidar com o mundo e as pessoas. Longe de ser uma distopia declarada, The Killing of a Sacred Deer rasteja abaixo do horror e da expectativa. Há algo terrivelmente torpe em cada cena. Uma situação trágica que escala pelo íntimo das paredes e que eventualmente explodirá no teto e afogará a todos. A amarra de toda a história e como ela se sustenta está na confissão disso logo no primeiro ato. A questão é: quando tudo fugirá do controle absoluto e ameaçará vidas inocentes com a mesma indiferença da filosofia que as torna humanas?

Na rotina seca e na forma asseada como se desenvolve, o núcleo familiar é conflituoso. Na sólida e aparente perfeição, o casal assume o topo de uma composição familiar pouco convencional. Talvez seja com esse estranhamento dado ao público que o filme usa seu próprio terreno para criar as metáforas mais incisivas sobre amor, compromisso, escolhas e instintos. Não demora para que o véu das aparências soe mais como uma fantasia dada a bestas tão animais quanto fabulares.

É só durante raras convergências de protagonistas e efêmeros coadjuvantes que a obra dramatiza no presente o que os diálogos evidenciam de um passado normativo, frio, e na prática, fácil de lidar. Os personagens orquestrados pela trama de Lanthimos não esboçam qualquer desenvolvimento de quem são. Ao invés de progredirem, se repartem entre o real e o fantasioso que vagarosamente engole cenário e personas. É por meio da trilha fanática que surge o primeiro vislumbre deste outro lado da trama. A trágica alegoria grega talvez encontre aqui o seu posto de vantagem. Firma-se um suspense aterrador aliado com a trilha linear e sensitiva, remetendo ao cinema de poucos diálogos do fazer dramático. Muito embora, como já mencionado, a abordagem do diretor escape de qualquer gênero principal, aqui existe para a guia dramática um consenso sobre o que lidera cada ato do grande thriller.

O som é um dos grandes responsáveis por guiar o enredo adiante. Embora seja fácil se perder no clássico coro grego de mudanças abruptas e quase sempre foras de hora, a concepção criada na maior parte das cenas cria a expectativa do que se revela apenas na próxima. O recurso acaba se tornando uma ferramenta de titulação visual incrível que orienta enquanto trai o espectador dentro do labirinto doentio do mistério criado para o grande conflito. Mais tarde, com o espectador imbuído da trilha já familiar com o direcionamento da trama, o clímax revela-se como o desague de toda a desordem sonora vinda de tantas direções. Os lugares, diálogos e ações aparentam quase mimetizar o que se segue ao fundo. Seja uma cena melancólica, eufórica ou serena com uma paleta mais leve, o coro estará sempre lá, preparado e atento.

É injetando artificialmente vida ao contexto que se observa que na verdade tudo, mais do que uma obra de passos e uma conclusão, se trata de um conto moderno para a posteridade.  Da fraqueza do homem de poucos sacrifícios ao ter que provar seu dever acima de sua moral à fragilidade da mulher na relação tão hedionda da rotina de liderar a família sob a sombra do marido. Anna Murphy (Nicole Kidman) toma na trama uma responsabilidade de papel tamanha para externar isso ao público que chega a beirar o grande enfoque protagonista a partir da segunda metade da obra. Carregando uma visão e princípios totalmente diferentes dos do marido, Steven, é capaz de demonstrar o lado de alguém que entra no imaginário alegórico criado por Lanthimos quase que por subjugação pelo próprio.

O destaque para Martin (Barry Keoghan) no filme é unanimemente justo pelo peso que o personagem representa dentro do motor do longa. Um passado foi semeado em sua figura e só começa a germinar no princípio da trama, embora o público pouco conheça mais sobre. Nos diálogos pouco convencionais e nas aparições que reviram estômagos, o mistério na figura do garoto e nas suas reais intenções ao se aproximar de Steven não perdem a grandeza da dúvida. Quanto mais respostas são ou aparentam ser dadas, mais difícil de ser lido o personagem se torna. Como responsável por guiar o eixo fantasioso da trama, Martin personifica o conjunto de inexplicáveis leis daquele mundo e passa a aplicá-las em devolução a todas as decisões da família. Um avatar do inevitável no corpo de um garoto imprevisível e deslocado. Se o semblante não é o suficiente para inibir qualquer confiança do espectador, seus mais tardios diálogos com os demais protagonistas serão.

The Killing of a Sacred Deer expele uma nova abordagem para o suspense. Galgado em drama e em metodismos artísticos da visão do próprio diretor, a obra se torna um expoente entre os vagarosos lançamentos dessa categoria de competitividade. Cavando fundo na psique e distribuindo sua abordagem em cada quadro bem elaborado, o longa traduz bem os estilos do cinema dramático enquanto visualiza uma possível nova formatação para dentro do gênero. Longe de ser um thriller focado em embaraços e presunções constantes provocadas no público, há no grande ritual do cervo a capacidade de aquietar e encantar com a sua caminhada que não apressa ou diminui o passo.  Se não fosse um fragmento de um legado para o suspense moderno, The Killing of a Sacred Deer seria no mínimo o arauto de uma nova era para ele. A mensagem de Lanthimos nunca foi tão bem transcrita aliada a sua técnica quanto desta vez.

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