Bicho de Sete Cabeças e a relação familiar

Divulgação: Columbia Pictures do Brasil

Laís Bodanzky é uma diretora que gosta de falar dos aspectos reais da vida e principalmente da juventude. Ela fez isso em “As Melhores Coisas do Mundo” de 2010, mas, se nesse filme uma abordagem otimista é utilizada, em uma obra lançada nove anos antes, a realidade crua da falta de informação é o assunto.

“Bicho de Sete Cabeças” traz a solidão que o seio familiar constrói sem saber, tudo isso personificado no personagem de Neto, interpretado por um jovem e talentoso Rodrigo Santoro.

A história é simples, Neto é um adolescente que deseja ser independente, ele tem um grupo de amigos e com eles consome maconha e álcool. Após seu pai, Wilson, representado por Othon Bastos descobrir maconha no bolso do casaco do rapaz, ele o interna em um manicômio, onde o jovem é tratado com crueldade e indiferença.

A projeção é inteligente ao usar a técnica para expor sentimentos. Trilha sonora, montagem e diálogos são essenciais para que o público possa entender o que Neto sente, como ele precisa de uma família que o ignora, e como a falta de dialogo de ambas as partes levaram a um extremismo desnecessário.

A trilha sonora é composta por músicas agitadas e é encaixada nas cenas de forma que choque o espectador. Percebemos isso logo na introdução do filme, quando Wilson lê a carta que o filho lhe envia, escutamos apenas as palavras sendo lidas e o silencio ao redor do homem, para logo em seguida uma musica forte e rápida começar. Dessa mesma maneira, quando Neto está com seus amigos ou indo até eles, quando ele corre para algum local ou durante sua estadia no manicômio, as músicas são dispostas nos quadros para assustar quem assiste.

E isso é apenas uma forma de expor os sentimentos do personagem principal, e unido a esse aspecto, a montagem, com seus cortes secos e duração certa de cada plano ajudam na construção de um ambiente claustrofóbico, já que Neto se sente sozinho e acuado durante quase toda a obra.

Nessa parte entram os diálogos, que são inteligentes em expor como não há uma relação entre a família de Neto – composta por pai, mãe (Interpretada por Cassia Kiss) e irmã – e o jovem, já que enquanto a mãe aceita em silencio o que o pai fala, a irmã é alienada por um amor que além de soar falso, parece inexistente, e o pai tem a necessidade de controle e cuidado que dominam toda a relação entre eles.

E é nesse controle – ou na impressão de controle – em que estão localizadas as cenas mais fortes do filme, pois são nos diálogos entre pai e filho que notamos a agressividade que domina a relação entre eles. Para isso é essencial atuações seguras dos interlocutores, que é justamente o que Othon Bastos e Rodrigo Santoro nos entregam. Se o primeiro é inteligente em usar o tom de voz alto para mostrar altivez, dominação e comando, o segundo usa do tom de voz baixo e da fúria controlada para expor a tristeza e a raiva que sente de toda a sua família.

Porque é isso que ele sente: tristeza. Neto queria apenas alguém com o qual pudesse aprender a ser independente, ele procurou isso na figura mais próxima, seu pai, mas não encontrou por causa da ignorância de um homem que não quis ensinar o que aprendeu sobre a vida para seu filho.

Assim, “Bicho de Sete Cabeças” é um filme inteligente em expor como a falta de dialogo pode gerar problemas sérios em uma família aparentemente normal, inteligente em mostrar a necessidade da comunicação e elegante ao usar a técnica justaposta a grandes atuações para expor tudo isso de forma mais simples para o espectador.

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