50 anos da Primeira vez de um homem.

No ano de 1967 o diretor Mike Nichols, diretor de Quem tem medo de Virginia Woolf (1966), Gaiola das Loucas (1996), Close: Perto demais (2004), lançou a comédia romântica intitulada The Graduate, ou em português BR, A Primeira Noite de um Homem. O filme que conta com a participação de Dustin Hoffman, Anne Bancroft e Katharine Ross, e é baseado no livro de mesmo nome do escritor Charles Webb. Com mais de meio século a comédia ainda brinca com nossos pensamentos, e faz um bom uso do jogo de câmeras e olhares em cena.

Capa alternativa do filme

 

O filme conta a história do jovem Benjamin Braddrock, ou somente Ben, que após a formatura na universidade é recepcionado por amigos de seus pais. Ben é um prodígio acadêmico, onde seus pais exaltam o orgulho e fazem diversos planos para a vida dele, entretanto o jovem ainda encontra-se perdido sobre o que pretende fazer de sua vida profissional e pessoal. Durante essa recepção de volta ao lar, Ben é seduzido por uma das amigas de seus pais, a senhora Robinson, a partir desse primeiro contato a vida do jovem Ben passa por grandes transformações, constrangimentos e aventuras amorosas, que lhe levam ao descobrimento das artimanhas da luxuria.

A Primeira Noite de um Homem é uma comédia romântica completa, não estamos falando de uma comédia com frases de efeito que preparam-nos para rir a toa por qualquer bobagem, é uma comédia romântica que nos coloca em uma trama bem sinuosa, porém antes de adentrarmos nos enlaces amorosos vamos entender quem é esse Benjamin Braddrock. Algum(a) leitor(a) pode até se identificar nesse sentido  com o personagem, quantos de vocês já se perguntaram sobre a vida pós universidade? Quantos de vocês acabaram vivendo o sonho que era dos seus pais e não os seus? Ou quantos de vocês sofrem aquela pressão por ter terminado a universidade e os pais ficam perguntando “e agora?”? pois é, esse é Benjamin Braddrock. As incertezas rodeiam a cabeça do jovem, que dedicou sua vida social aos estudos e pós os estudos percebe que já tem uma vida profissional inteira para planejar e ainda não havia dado oportunidade a sua vida social. E como o diretor Mike Nichols passou toda essa aflição e desconforto do jovem Ben para os telespectadores é muito particular, podemos perceber a câmera sempre bem próxima do ator Dustin Hoffman, isso é proposital, a necessidade de captura dos momentos de aflição do personagem dão a está comédia o enredo sinuoso que tanto ela transmite, sem falar que num caráter técnico estamos falando de algo não muito corriqueiro nos tipos de planos de filmagem para a época.

Exemplo de um, dos diversos planos utilizados pelo diretor Mike Nichols.

O filme teve uma aceitação positiva pelo público jovem do final dos anos 60, onde estes se identificaram justamente pela não obrigatoriedade de seguir os padrões preestabelecidos de uma sociedade velha para o seu tempo atual, também o diretor foi extremamente feliz ao fazer alguns insights acerca dessa comparação entre a vida que os jovens querem seguir, com a vida que os pais querem que os seus filhos sigam, um exemplo disto é a cena onde o Ben esta dentro de uma roupa de mergulho e seus pais ficam “forçando” ele a se expor para todos os amigos e familiares que ali  se encontram, a visão de Ben é limitada por uma viseira( a mascara de mergulho), essa só mostra uma visão limitada e direcionada, assim como  ele ali preso dentro da roupa de mergulho, a necessidade de fuga do personagem é constante, na continuação da cena ele é guiado pelos seus pais para uma piscina e lá mergulha e vai direto para o fundo da mesma. As leituras das metáforas por trás desse recorte de cena são muito bem colocadas, a roupa de mergulho enquanto uma prisão imposta ao rapaz, o peso da roupa como o peso de suas responsabilidades apresentadas e cobradas pelos seus familiares, o fundo da piscina como a vida do Ben a qual ele se encontra… enfim, o diretor é feliz nas metáforas que ele propõe ao personagem do Hoffman.

Então, assim nós entendemos o personagem principal de nossa trama, todavia estamos falando de uma comédia romântica, logo é necessário  adentrarmos nas tramas amorosas ligeiramente. Em meio a tanta clausura, Ben conhece a Senhora Robinson, está que é totalmente diferente dos demais adultos que cobram dele sobre sua vida profissional, ela acaba sendo uma alavanca para que seja desenvolvido no personagem uma espécie de rompimento de crisálida, onde está encontra-se toda sua insegurança e apatia social que o personagem do Hoffman apresenta. Na companhia da Senhora Robinson, Ben passa a desenvolver aspectos sociais e afetivos que antes ele não reconhecia, muitas vezes ate de forma um tanto quanto assediadora por parte da Senhora Robinson. A relação de Ben e Senhora Robinson somente é abalada com a inserção da filha da Senhora Robinson, Elaine.  O dilema e a falta de objetivos do jovem Ben são todos reconfigurados e Elaine passa a ser aquilo mais importante na sua vida.

Outro aspecto que vale a ressalva do filme é a trilha sonora, a escolha e colocação das músicas durante o filme consegue trazer a essência de mensagens e discursos sutilmente inseridos, por exemplo The Sound of silence de Simon e Garfunkel, atentem para o momento que a musica toca e os recortes da música que é tocado, tudo se encaixa numa sinfonia perfeita entre o que Ben esta passando e sua evolução enquanto personagem. Os simbolismos da obra são evidentes, desde os ataques do personagem do Ben com uma cruz se defendendo na porta da igreja, até a fuga da igreja com sua amada, o filme é uma mensagem clara não somente a uma primeira vez de um jovem, mas as constantes primeiras vezes que as vidas dos jovens se iniciam e para onde devem seguir.

Cena emblemática da obra, onde os anseios foram saciados, porém a incerteza do futuro é clara.

O filme ainda conta com outros aspectos que uma inteligência que só o diretor poderia exprimir em sua essência, assim A Primeira Noite de um Homem é uma obra de meio século de existência que é contemporânea pelos aspectos que a própria obra nos apresenta.